"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Questão da Verdade e a Obsessão pelo Consenso - Ensaio sobre o Declínio da Razão

Há muito tempo atrás li que a característica da verdadeira arte é “transcender o seu tempo”. Tenho certeza que não entendi a afirmação e lembro que não havia, antes ou depois dela, qualquer definição geral do conceito de arte e muito menos de tempo. Sem nenhuma qualificação formal em filosofia é portanto  um atrevimento o que pretendo sustentar no início deste  artigo – a ideia, evidentemente nada original, de que as grandes questões do entendimento humano são comuns à arte e a filosofia. Mesmo sendo um clichê, permitam que eu escreva  que Brahms, Thomas Mann, Kant, Monet e tantos outros usaram  formas diferentes de expressão para abordar nosso desespero perante a morte, a indagação do que é o belo, qual a melhor maneira de viver uma vida justa e alguns acrescentariam  "e perfeita",  o que são o mal, o tempo, o amor, a verdade....e assim por diante.

Na minha profissão e especialidade é possível curar algumas vezes, aliviar com frequência e consolar quase sempre. Um médico intensivista, com pretensões de “filósofo”, deveria portanto escrever sobre o tema da morte. Ainda assim não é a morte o enfoque deste texto. Eu gostaria de discorrer sobre a questão da verdade.
É possível, em filosofia, distinguir cinco conceitos fundamentais de verdade – como correspondência, revelação, conformidade com uma regra,  coerência,  ou  utilidade. Assim, Kant afirmava que a verdade é a concordância da razão com seu objeto. Moisés teve a verdade revelada por Deus, nossos juízes sabiam  que a verdade deve estar em conformidade com a lei,  Maquiavel sustentou que os fins justificavam os meios e Deng Xiaoping (antecipando Lula) afirmava que na verdade não importa se o gato é branco ou preto desde que ele mate os ratos. Embora pueris, são alguns exemplos das maneiras  (algumas delas catastróficas) de entender o que seria a verdade.
Em 1987, Allan Bloom em The Closing of the American Mind, afirmou (para desgosto da New Left Americana) que “há uma coisa que todo professor pode ter certeza absoluta: quase todos os estudantes que entram para a Universidade acreditam, ou dizem que acreditam, que a verdade é relativa” O objetivo de seu livro era mostrar como a democracia ocidental acolheu inconscientemente ideias vulgarizadas de niilismo, desespero, e de  relativismo disfarçado de tolerância. Seguindo uma tradição filosófica que entende a história como ciência exata substituímos razão pelo consenso e acabamos com toda possibilidade de revelação na busca pela verdade. Partindo do materialismo histórico, concluímos que a verdade pode ser construída, que a ferramenta é a democracia e o mestre de obras é o Estado. Neste sentido, desde Hegel até Hitler o que assistimos foi o ocaso do indivíduo, a diluição do ser humano na multidão e aquilo que ouso chamar de patologia do tempo - uma espécie de doença onde não há mais passado nem futuro  e portanto  não há lugar algum para Deus nem para Razão (a Razão como processo fundamenta-se em  causa e efeito e portanto transcorre no tempo).
Assim sendo, não  foi a toa que em 1926 Ortega y Gasset afirmou que “dentro de pouco tempo se ouvirá um grito formidável que se elevará do planeta como uivos de inumeráveis cães, até as estrelas, pedindo alguém e algo que mande, que imponha uma tarefa ou alguma obrigação". Tomando o lugar da verdade revelada, a obsessão pelo consenso construído  liquidou com a noção de mérito. Não podemos portanto afirmar “ nascer, morrer renascer ainda e progredir sempre - tal é a lei”  e não podemos fazê-lo não por que não acreditamos na lei da reencarnação, mas por que não acreditamos mais  em lei alguma!
O legado final, e verdadeira desgraça do materialismo, não foi a extinção da religião ou de um conceito “social” de Deus. Mesmo Antônio Gramsci sabia que o Estado não pode substituir a consciência do indivíduo, mas ao confundir verdade com consenso destruímos  para sempre a noção de que a  caridade é feita em silêncio e que fora dela não há salvação.

                                                                                                                 Porto Alegre, junho de 2011

Milton Simon Pires
Médico Intensivista
Porto Alegre - RS
cardiopires
Enviado por cardiopires em 29/06/2011
Reeditado em 02/07/2011
Código do texto: T3065451
Classificação de conteúdo: seguro

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O OLHAR DA MORTE


A Primeira Guerra Mundial foi um conflito fundamentalmente europeu que ocorreu entre 1914 e 1918. Guerra da eletricidade, do rádio e da morfina, ela matou milhões e mudou para sempre aquilo que seria a história do século XX. O objetivo deste artigo é discorrer sobre uma produção cinematográfica de  2002 chamada Deathwatch. Em Portugal recebeu a tradução correta, mas no Brasil foi pateticamente distribuída como Guerreiros do Inferno.

O que poderia um médico brasileiro escrever em 2011 sobre uma guerra cujo início data de quase 100 anos? Mais: por que razão o faria?
Muito mais do que a falta de formação acadêmica é a necessidade de escapar de conceitos do marxismo e da psicanálise que me preocupa e é portanto na simples condição de médico e de espírita que escrevo estas linhas.
A análise daquilo que foi a Grande Guerra não escapa, logo no início, da seguinte curiosidade: uma série de escritores, filósofos e intelectuais antes de 1914, sob certo aspecto, previram o que se aproximava (Nietzche talvez seja o maior deles) mas depois de 1945 o conflito foi praticamente esquecido. Não há aqui espaço para analisar meu interesse no assunto. A título de curiosidade fica a informação de que no Corpo Expedicionário Português, nove soldados com o sobrenome da minha família (Pires) perderam a vida na Primeira Guerra Mundial.
O Olhar da Morte transcorre durante o ano de 1917 no chamado front ocidental. O filme conta a história de um pelotão inglês - o Pelotão Y -  que avança em território inimigo e termina perdido  dentro de uma trincheira alemã. Livre de vários clichês , até porque trata-se de uma produção ânglo-germânica, a peculiaridade é que todos os soldados ingleses já estão mortos e não se deram conta disso. O personagem principal, sugestivamente um jovem recruta chamado Shakespeare, é o único a guardar algum resquício de humanidade em relação ao que que vai acontecer lá. A trincheira está cheia de corpos de soldados alemães, água, e ratos. Fenômenos sobrenaturais passam a acontecer levando os ingleses a perder a sanidade, questionando cada vez mais a disciplina, a  hierarquia e a razão de se encontrarem ali.  Passam a exercer sua crueldade com o único alemão sobrevivente que encontraram ao chegar. Este personagem, fundamental na história, fala apenas francês e o único capaz de entendê-lo é justamente o recruta Shakespeare. É impossível deixar de comparar no final (numa visão católica) este soldado alemão com o próprio demônio, mas é o desespero de todos e as atitudes cruéis que tornam difícil a analogia. Entre vários acontecimentos um chama a atenção - é localizado na trincheira um aparelho de rádio. Um dos soldados ingleses consegue ligá-lo e escuta comunicações do próprio comando britânico dando conta que todos no Pelotão Y  estão mortos. Num clima de  violência cada vez maior, os soldados passam a se agredir e a “se matar” entre si e ironicamente é o inimigo que insiste em avisá-los que algo mais está acontecendo ali. Em determinada parte do filme, o sobrevivente alemão está sendo torturado por um o inglês. Ele é salvo por Shakespeare num ato de piedade que foge de todo contexto. Entrando em uma caverna dentro da própria trincheira este último soldado inglês encontra todos os outros companheiros na escuridão e vê a si mesmo entre eles. Fica evidente que todos estão mortos mas o recruta insiste em negar o fato fugindo da caverna e encontrando na saída o alemão armado e disposto a matá-lo. Ele lembra o inimigo que antes havia salvo sua vida e portanto merecia  uma chance igual. O alemão então aponta uma escada de saída daquela trincheira e Shakespeare sobe por ela desaparecendo na neblina.
O Olhar da Morte oferece do ponto de vista espírita uma oportunidade ímpar nos filmes de guerra: entender todo o sofrimento como um teste para capacidade humana de crer na bondade do outro. A Primeira Guerra Mundial representa, como todas as guerras, a impossibilidade da razão. Não parece existir doutrina histórica ou moral capaz de explicar a redução da condição humana ao que se assiste neste drama, mas o filme sugere que as vezes podemos estar vivendo no próprio inferno sem se dar conta disso.
Mais do que uma homenagem aos soldados que morreram , o Olhar da Morte é um tributo a toda uma geração incapacitada para o amor, para o trabalho e para fé em Deus.
Perdido nas prateleiras entre o gênero guerra e terror a mensagem final desta obra rara  é que  o ser humano é capaz de obter a salvação e a liberdade  através da esperança e do perdão.

Milton Simon Pires
Médico Intensivista
Porto Alegre - RS
cardiopires
Enviado por cardiopires em 24/06/2011
Reeditado em 28/06/2011
Código do texto: T3055260
Classificação de conteúdo: seguro