"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Doutrina Espírita e o Conceito de Tempo - Uma Revolução em Silêncio

De que modo existem aqueles dois tempos - o passado e o futuro - se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade !

Foi dessa maneira devastadora para todos os filósofos e que até hoje não teve contestação à altura que Santo Agostinho, no Livro XI de Confissões, nos colocou o problema de definir o que é o tempo. O presente artigo tem por objetivo apresentar algumas considerações a respeito desse problema fundamental para Filosofia e as oportunidades e desafios que o Espiritismo nos oferece ao abordá-lo. Cada vez que nos perguntamos o que vem a ser exatamente o tempo ficamos impressionados - a quantidade de respostas é inversamente proporcional a capacidade de esclarecimento. Desde as condições meteorológicas até o processo de envelhecimento, passando pelas piadas daqueles que nos mostram seus relógios, as pessoas nos dão longas explicações que a rigor não tem significado algum. Mais do que isso, nos impressionamos com a convicção de respostas que frequentemente apelam para noção de "senso comum" e que demonstram aquela que talvez seja a única verdade sobre a questão - também estabelecida pelo bispo de Hipona - se nos perguntam o que é o tempo, sabemos; se tivermos que explicar o que é, já não sabemos. É a partir deste ponto que eu gostaria de começar este breve exercício de entendimento. O conceito de tempo como uma espécie de "ordem interna" do processo racional foi magistralmente tratado por Kant em sua Crítica da Razão Pura. Na parte que toca à Estética Transcendental, parece ser evidente que a simples noção daquilo que venha a ser o tempo prescinde de uma experiência prévia e ele é definido como uma espécie de "verdade intuída". Sem ser um filósofo profissional e muito menos ter a certeza de ter compreendido bem um livro como esse, me parece que o tempo funciona como uma espécie de "pano de fundo" para um teatro em que o ator principal é a nossa própria razão. Parto aqui da idéia de que, tudo aquilo que entendemos como racional precisa ser entendido no tempo e não a partir dele. Tudo que nos cerca nos parece passível de ser analisado racionalmente à medida que estabelecemos relações de causa e efeito entre os fenômenos que observamos. Sem a noção de antes e depois não é, ao meu ver, possível ser racional em sentido algum.
A verdadeira revolução que a Doutrina Espírita coloca para esse problema (definição do que é o tempo) é a idéia da reencarnação. Toda nossa vida é pautada pela idéia de finitude. Aceitando ou não, todos nós sabemos que um dia vamos morrer e o universo moral em que vivemos tem seus conceitos inevitavelmente fundado nisso. Nossa espécie construiu seus ideaIs de beleza, amor, verdade, e acima de tudo justiça em função de sermos mortais. Extrapolamos nossas noções de certo ou errado conforme o tempo em que estivemos aqui. Conversando com amigos ou simples conhecidos nos surpreendemos às vezes dizendo de forma amarga - Não há justiça nesse mundo. Veja o exemplo de "fulano" que trabalhou toda vida, nunca fez mal a ninguém, sofreu como um cão e morreu na miséria. Não é fácil ser filósofo num momento assim, mas num exercício muito rápido é possível ver que toda essa "verdade" exposta de maneira tão cruel depende de aceitar como resolvido um problema que não está nem próximo disso. Se não; vejamos: como posso dizer que não há justiça nesta vida quando não sei exatamente o que é tempo? Se a própria noção geral do que é justiça depende unicamente da minha vida aqui nessa terra e que essa vida é a única que eu tenho, como posso aceitar um Deus que me faz nascer, morrer, e viver na mais perfeita injustiça? Coloca-se aí o problema de que se Deus existe ele não é justo, mas se ele não é justo; então não é Deus. A revolução a que faço referência no título deste trabalho é o advento da noção de reencarnação. Resgatado e codificado de forma tão brilhante por Kardec ela não é nova na história humana pois a necessidade que todos nós temos de dar um sentido ao sofrimento e entender aquilo que vivemos é anterior ao Espiritismo. Iluminados pela mensagem deixada por Cristo que tem como fundamento o princípio filosófico de que o fim do corpo não é o do espírito, temos na idéia de reencarnação toda uma verdadeira "revolução" naquilo que entendemos como justiça. Este é o fato fundamental pois eu afirmo que todo ser humano, acreditando ou não em Deus, sabendo ou não o que é o tempo, está, como diria Sartre, "condenado a ser livre" e para isso (acréscimo meu) a buscar aquilo que pensa ser justo "Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei" é o lema desta revolução que se fez em silêncio, que mudou o que pensamos sobre o que é a justiça e o que é o tempo e nos mostra, de maneira quase geométrica, que fora da caridade não há salvação.

20 de julho de 2012

Dr.Milton Simon Pires.
CREMERS 20958
Porto Alegre - RS
cardiopires
Enviado por cardiopires em 20/07/2012
Reeditado em 30/05/2013
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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Diabo tomando Prozac - Ensaio sobre o Fim da Cultura

O presente artigo parte da premissa de que, em toda História da civilização, jamais houve verdadeiramente uma cultura que aceitasse completamente a responsabilidade de seus próprios atos. Sustenta ainda a idéia de que  a alteridade do mal, ou seja, sua condição de força com vida própria e alheia à vontade humana foi sempre uma necessidade em todas as épocas.

O estudo comparado das religiões não deixa de se  mostrar irônico no sentido de que, se o Bem e os deuses responsáveis pela sua  existência tem características tão distintas,  o Mal nos parece ser o resultado da ação  de um Diabo que costuma se repetir muito, ainda que com "excelentes" resultados. Seria falta de imaginação da parte dos criadores das teogonias ou é verdade que o Diabo sempre vai ser o maior inimigo de Sartre? Para quem não lembra, esse talvez tenha sido o filósofo da "responsabilidade" - alguém que sempre vai nos chamar para assumir as  consequências das nossas ações e lembrar  que estamos "condenados a ser livres" para escolher o nosso destino. É impossível imaginar um papel para o Diabo quando se pensa como um existencialista porque Lúcifer, não tenho dúvida, tem como função negar a liberdade humana. Aqueles que acreditam em possessão demoníaca e exorcismo (não interessa em que tempo ou lugar) não deixam de repetir Rosseau e o seu "bom selvagem" porque não parece diferente dizer que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe do que afirmar que ele é bom; mas o Demônio o possuiu. O que existe em comum nos dois casos é, como eu escrevi no início, a idéia de alteridade, a noção do outro, do objeto externo e da inocência a priori da qual resultará sempre a possibilidade de se redimir e, como gosta de lembrar Luc Ferri, de obter a Salvação - eterna busca do homem e espécie de "primeiro-motor" da filosofia.
O que eu me pergunto às vezes é - que papel pode existir para o Demônio em uma sociedade que não sente mais culpa? Heresia para qualquer discípulo de Freud, essa idéia parece de início um absurdo - "Não há cultura sem Repressão" está muito próximo de "Não há cultura sem Culpa" mas mesmo assim eu gostaria de insistir na hipótese e imaginar um "mundo sem remorsos”...um mundo de Auschwitz, de Pol Pot e do seu Camboja, um mundo de fanatismo com Hitler e Stalin..um mundo assustador e antecipado por Dostoiévski em "Os Demônios"...enfim..um mundo onde a palavra "culpa" já não tem mais significado porque nele  impera a ausência de sentido e não se sabe mais o que é o Bem e o Mal..
Eu acho deprimente pensar o mundo assim, mas imagine-se por um momento no papel de "Diabo"..Um Diabo nesse mundo não passaria de um "pobre diabo"..um diabo com "d" minúsculo que não sabe mais ao que veio, já que não tem mais nada para fazer aqui..
Dormindo mal, bebendo, sentindo-se inútil..esse Diabo pós-moderno vai acabar usando Prozac porque a questão do sentido obrigatoriamente permeia toda ação seja ela humana, divina ou "diabólica" e a depressão adquire aí um caráter quase "sobrenatural"...rsss
Espero, para terminar com mais esperança, que o próprio conceito de Cultura não dependa de tanto maniqueísmo...Bem, Mal, Deus, Diabo...quem sabe a Civilização sempre vai estar aí e essas forças estão dentro de nós mesmos? Quem sabe não há sentido algum a ser buscado como querem os teóricos da Desconstrução..ou quem sabe busca e destino são uma coisa só como querem os budistas? Não sei, mas de uma coisa tenho certeza - até uma certa época da nossa História, de certa maneira, sempre houve um sentido..Agora não parece haver mais e acho difícil que torne a haver enquanto não percebermos que quem morreu foi Nietzsche; não Deus..e que não há espaço para diabo algum quando é Ele que está dentro de nós.

                                                     para Eunice.

                                                                                                                                                         julho de 2012
cardiopires
Enviado por cardiopires em 06/07/2012
Reeditado em 30/05/2013
Código do texto: T3764310
Classificação de conteúdo: seguro