"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A MORTE DA PRÓPRIA POLÍTICA.


Uma das tentações mais fortes a que pode ser submetido no Brasil um funcionário público, médico ou não, é a do “diagnóstico administrativo”. Desafio qualquer um de vocês a negar que, uma vez em contato com departamentos de recursos “humanos”, setor “pessoal”, ou qualquer coisa parecida, não tenha saído de lá furioso acusando quem atende naquela área de ser desinformado, desorganizado ou corrupto, mas procurando sempre definir tudo numa palavra só.
Afirmo eu que no Brasil nada pode ser mais enganoso: a “máquina” não funciona desse modo. O que existe é uma combinação quase perfeita de indiferença, corrupção e incompetência. Acusado, com razão ou sem de um dos defeitos, o “sistema” muda de linguagem deixando com cara de palhaço o pobre diabo que se encontra na frente do guichê.
Essa sensação que mistura raiva, impotência, e abandono vem se alastrando pela sociedade brasileira. Seus frutos são o egoísmo e a indiferença..a perda da capacidade de se comover e da caridade além de uma ânsia constante pela “normalidade” e pelo lugar comum..É nesse lugar comum que o homem sem crítica, que o cidadão vazio e “democrático” se sente acolhido pelos iguais e deixado em “paz pelo sistema”. Chefiado por alguém sem rosto, assustado por um terror sem face, esse homem-oco vaga de repartição em repartição preenchendo formulários e apresentando documentos para finalmente ser reconhecido como igual pelos “colegas” de trabalho.
Nada pode ser mais triste do que essa hiperdemocracia, do que essa ditadura dos medíocres que cria a desesperança com relação à política. Dessa sensação de que nada vai mudar surgiram os berços dos monstros...as incubadoras das serpentes...os fornos dos ditadores.
Perigosa confusão se faz quando, ao lembrar de Hitler, Mao ou Stalin pensa-se em “ditadura” pois são todos eles filhos máximos de uma noção doente de democracia. Chegaram ao poder carregados nos ombros dessa entidade fantasma, desse “ser místico”, que tudo pode e que tudo justifica: o povo. Nunca, em toda história da humanidade, depois de 1789 se matou, se prendeu e se torturou tanto quanto em nome desse conceito aberrante, dessa máxima coletividade cuja força é tão grande que esmaga qualquer indivíduo.
Dramático é perceber que tudo que se fez em nome do bem, do belo e do justo espelha-se – durante toda nossa história – na alma de poucos; não na concordância de muitos e que dessa confusão demoníaca entre verdade e consenso resulta o caos que impera na sociedade brasileira.
Em 2003 chegou ao poder no Brasil a ralé da sociedade. Não se entenda nessa definição que me refiro às pessoas sem cultura, pobres ou corruptas. Nada disso se restringe ao nosso país e pouco esclarece no sentido de apontar soluções. Por ralé quero aqui me reportar àqueles que vivem num mundo onde palavras como honra, dever e justiça não fazem sentido algum. Isso é assim não por causa de uma personalidade formada na pobreza ou psicopatias mimadas por ricos. Digo que essas pessoas não são imorais, mas amorais e que sua ascensão ao poder só poder ser entendida num contexto de crise de consciência dos melhores..num sentimento de culpa inexplicável metodicamente implantado pela mistura mágica de marxismo com a religião católica.
Nada há que se pleitear no sentido de mudar uma sociedade que não reconhece mais diferenças..no sentido de melhorar um mundo em que não se reconhecem méritos e onde sucesso deve ser motivo de vergonha. Pudéssemos nós todos entender o quão profundo é o impacto da unanimidade e haveríamos de compreender seu efeito sobre a política...sobre essa necessidade constante e inerente à condição humana de mediar conflitos entre os que são diferentes sem fazer da igualdade de pensamento uma religião.
Digo que, entre a ditadura mais cruel e a hiperdemocracia petista em que vivemos, nada de diferente pode sobreviver e que todo pensamento original há de agonizar num mundo sem espaço para filosofia e onde só impera a morte...a morte da própria política.

PORTO ALEGRE, 17 DE OUTUBRO DE 2013. 

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