"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

DIA DO MÉDICO – PARABÉNS EM ESPANHOL



Nada mais justo do que dizer que, entre a depressão profunda e a alegria dos tolos, deve haver um meio-termo. Tarefa ingrata para qualquer pessoa inteligente, no caso dos médicos brasileiros ela é hoje quase impossível. Nada há que ser comemorado nesse 18 de outubro pois esse é um ano trágico para medicina do país. Escondendo a falência da rede hospitalar, as péssimas condições de trabalho, os vínculos empregatícios vergonhosos, a superlotação das unidades de atendimento, o governo petista conseguiu, no desespero pela reeleição, aprovar seu Programa Mais Médicos.
Pergunto a quem está lendo e que não é colega de profissão: o que vocês acham que devemos comemorar? Como vocês pensam que estamos nos sentindo vendo a profissão ser levada ao fundo do poço? O que pensar quando um governo não respeita os médicos do país?
É muita, mas muita hipocrisia mesmo, dizer que “a medicina é maior que tudo isso”...que o “amor a profissão tudo pode superar” quando recebendo os parabéns dentro dos hospitais os médicos brasileiros comem salgadinhos e tomam refrigerantes a alguns metros de uma sala de emergência que mais se parece com um navio transportando escravos.
Duvido que exista algum médico brasileiro, sem compromisso com o PT, que hoje possa estar feliz. Não acredito na sinceridade daqueles que se dizem gratos pelos “parabéns” recebidos de outros “profissionais” da saúde. Agoniza a nossa profissão e nada há que ser comemorado. Nosso conselho nos abandonou e nossos sindicatos são controlados pelo partido do governo. Nenhuma “entidade médica”, desse mundo ou do outro, cerra fileira conosco na indignação por termos dentro do Brasil pessoas que sequer sabemos se são médicos de verdade.
Que alegria pode ter no seu trabalho um médico que atua no SUS? Qual o prazer de não ter resultado de exames mínimos? Que mérito existe em trabalhar em hospitais com goteiras, paredes caindo e ratos nos refeitórios? Que satisfação pode alguém ter em não conseguir leito para internação quando, atendendo numa escola abandonada transformada em unidade de pronto-atendimento, precisa colocar um paciente dentro de um hospital? Como conviver com essa legião de burocratas – gente picareta mas que não conseguiu entrar para política – que chefia os médicos brasileiros nos serviços públicos?
Ora, por favor, convenhamos: nada há que ser comemorado no dia de hoje! Mensagens de e-mail com “parabéns pelo seu dia” devem ir direto para lixeira de qualquer médico com um mínimo de lucidez.
Se alguém quiser me cumprimentar não vou ficar brabo. Prometo não ser agressivo, fazer discurso político ou responder com grosseria – tudo terei obrigação de deixar passar. Afinal, onde fica o “meu juramento” não é mesmo? Peço apenas o seguinte: se fizerem alguma homenagem maior não se enganem – pelo menos cantem parabéns em espanhol..


Porto Alegre, 18 de outubro de 2013.   

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