"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

OS ESPECIALISTAS DA LBB

Em  texto anterior já me apresentei: sou médico em Porto Alegre e trabalho em uma das Unidades de Terapia Intensiva (UTI's) que estão atendendo os sobreviventes da tragédia de Santa Maria. Também já descrevi antes  quais os riscos que estas pessoas correm no  momento.

Neste pequeno artigo quero mudar de assunto. Desejo fazer uma homenagem a uma grande instituição brasileira que vem atuando através dos meios de comunicação pelo menos desde o incêndio do edifício Joelma em 1974 – a LBB – Legião Brasileira de Bobalhões.
A LBB é uma entidade aparentemente sem fins lucrativos. Na verdade é o ego de seus especialistas que cresce a cada episódio de comoção nacional. Para ser um especialista da LBB é preciso obedecer alguns pré-requisitos. Normalmente são pessoas com curso superior: médicos, engenheiros, advogados, psicólogos, jornalistas, entre outros...
 Uma das  características fundamentais do especialista da LBB é falar sobre algo que não conhece. Assim, por exemplo, no caso da tragédia de SM, um advogado vem a imprensa falar sobre insuficiência respiratória aguda, um médico fala sobre a prisão dos suspeitos, ou uma psicóloga determina quantas saídas de emergência a boate Kiss deveria ter.
Os cronistas da grande imprensa brasileira – que normalmente ocupam cargos de direção na LBB, costumam superar todos os demais “especialistas” por que falam com uma desenvoltura (e uma estupidez) fantástica sobre todos estes temas. Misturam tudo e acabam por me fazer lembrar daquela letra de música - “presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada”.
 Além desta habilidade fundamental para ser um integrante da LBB, existem outras que podem ajudar muito. Uma delas é ser professor desta máquina de formação de idiotas que se tornou a Universidade Brasileira – ambiente de onde todo mundo costuma sair acreditando que a Terra está aquecendo, que Deus não existe, e que atropelar uma foca é mais grave que deixar uma criança morrer de fome.
Quando alguém da LBB é confrontado com um texto como este que escrevo agora, imediatamente se defende afirmando o seguinte – é a comoção nacional que faz com que ocorra este fenômeno, Milton! As pessoas estão apavoradas..não sabem o que pensar nem o que dizer para compreender a morte de mais de 230 jovens. Respondo a elas o seguinte: uma coisa é ficar comovido, a segunda é escrever, a terceira é ter acesso ao lixo que é a grande imprensa brasileira e a quarta é ocupar cargos chave do poder público com poder de vida e morte sobre a segurança das pessoas. Deveria haver uma lei sobre acúmulo de funções! Ou alguém pertence a LBB ou tem de fato cargo público.
Atualmente quem mais lucra com a desenvoltura da LBB no Brasil são estas criaturas que ocupam o meio termo entre a espécie humana e os animais – nossa classe política. Apoiados pelos especialistas  desta instituição nacional que é tão brasileira quanto o Carnaval, o futebol e as mulheres  seminuas, os nossos governantes tem acesso ao rádio, jornal e TV com toda segurança do mundo. É a receita perfeita para esquecer os trens do Rio de Janeiro circulando com gente saindo pelas janelas, nossas grandes capitais com seu contingente de bombeiros reduzido à miséria, nossos hospitais com ratos circulando nos blocos cirúrgicos e nossa previsão meteorológica  feita por “patricinhas” de cabelo comprido e calça justa..
Termino aqui meus amigos. Já estou me sentindo, eu mesmo, candidato a um cargo na LBB. Afinal, se sou médico, porque não estou cuidando dos meus pacientes em vez de escrever tudo isso ??  Antes do ponto final uma atitude da minha profissão. Uma receita para todos os integrantes da LBB que estão na mídia escrevendo sobre o que ocorreu aqui no Rio Grande do Sul – tomem 3 vezes por dia e pelo durante uma semana uma dose de vergonha na cara! Parem de explorar a morte das pessoas falando sobre o que não sabem. Qualquer dúvida é só me ligar... eu prescrevo para vocês um remédio mais forte!

cardiopires@gmail.com
cardiopires
Enviado por cardiopires em 29/01/2013
Reeditado em 29/01/2013
Código do texto: T4112030
Classificação de conteúdo: seguro

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

SANTA MARIA E A GUERRA DO VIETNAM

Em 1967 a Guerra do Vietnam envolvia um contingente cada vez maior de soldados americanos. As necessidades de atendimento aos feridos graves, entre eles as vítimas de queimadura e intoxicação, demandavam recursos materiais e humanos cada vez mais complexos. Os EUA construíram, na cidade litorânea de Da Nang,  um hospital militar com o objetivo de atender suas tropas. Nesta época não existia propriamente a especialidade hoje conhecida como Terapia Intensiva. Foi com espanto que os médicos militares começaram a atender um número cada vez maior de pacientes vítima de intoxicação em função do chamado “agente laranja” e outras substâncias químicas utilizadas para desfolhamento de florestas e localização dos esconderijos inimigos. As pessoas apresentavam como quadro clínico uma síndrome que envolvia, entre outros sinais e sintomas, acúmulo de líquidos nos pulmões e diminuição da capacidade de oxigenação do sangue.

Essa nova doença ficou conhecida como “Pulmão de Da Nang” e hoje,  nós intensivistas, a chamamos de SARA – Síndrome de Angústia Respiratória do Adulto.
Fiz esta breve introdução para dizer que é isto que pode acontecer com os sobreviventes do incêndio de Santa Maria. Mais;  gostaria que ficasse muito claro a todos que este tipo de “coisa” não pode ser atendido (numa situação que envolve um número de pacientes tão grandes) com segurança em nenhuma capital brasileira. Isto ocorre porque simplesmente não há unidades de terapia intensiva em número suficiente nem respiradores artificiais para atender tanta gente.
Em meio a tanto desespero não há um só político ou autoridade da saúde com honestidade suficiente para dizer aquilo que escrevi acima. Há pelo menos quatro décadas assistimos gerações e mais gerações de secretários e ministros da saúde insistindo na ideia de medicina comunitária e prevenção. Pois bem, pergunto agora: o que nós, médicos intensivistas, devemos fazer com as pessoas que sobreviveram ao incêndio de Santa Maria ? Encaminhá-las para postos de saúde? Não se constrói um hospital público em Porto Alegre desde 1970! Pelo contrário; vários foram a falência e fecharam !
Que o Brasil inteiro saiba que é MENTIRA a afirmação das autoridades de que Porto Alegre tem leitos de UTI suficientes para atender toda essa gente! A secretaria estadual da saúde pode, se necessário, comprar leitos na rede privada mas mesmo assim é muita sorte haver algum disponível. Com relação aos responsáveis por esta tragédia, deixo aqui a minha opinião – foi o poder público corrupto, negligente e incompetente, quem MATOU todos estes jovens!
É esse tipo de  gente que quer entupir o  o Brasil com médicos de Cuba e do Paraguai, que manda médicos para o Haiti e que insiste em saúde “comunitária”, que agora aparece na televisão chorando e abraçando os pais das pessoas que morreram.
Termino aqui;  como em toda situação de guerra, a primeira vítima de Santa Maria, assim como em Da Nang,   foi a verdade – jamais esqueçam isto !

Milton Pires
Médico Intensivista
Porto Alegre – RS.
cardiopires
Enviado por cardiopires em 28/01/2013
Reeditado em 28/01/2013
Código do texto: T4109514
Classificação de conteúdo: seguro

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

PARA ALÉM DO BELO E DO FEIO – A MORTE DA ARTE NO BRASIL

Uma das frases que mais  encanta  os brasileiros é “gosto não se discute”. Parece que toda vez que alguém a pronuncia faz na verdade uma profissão de fé. Demonstra, não importa como, que se diferencia de uma verdadeira “legião de fanáticos”: pessoas retrógradas e de “direita” que  sustentam que a música, a pintura, o cinema e a  literatura (só para citar alguns exemplos) tem regras próprias cujo domínio exige por parte do artista uma atividade disciplinada e, em certa aspecto,  racional. Proclama-se orgulhosamente que a chamada “inspiração” não tem regras, coisa que me faz recordar gente que, substituindo turismo por estudo, julga-se grande conhecedora de países estrangeiros. É cômico (para não dizer  triste) observar aqueles que,transformando ateliers  e estúdios de gravação em consultórios de psicanálise, misturam  os conceitos de beleza e democracia de uma forma tão desonesta.

O objetivo deste pequeno texto é uma ligeira reflexão sob o conceito de beleza e da própria arte no Brasil dos dias de hoje. Antes de começar; algumas rápidas observações. Estética é um campo próprio da filosofia. Seu domínio está muito além da capacidade de alguém que aborda o assunto como amador porque encontrou na Medicina uma profissão e na Filosofia um hobby. Decorre daí a necessidade de um aviso – que ninguém perca tempo achando que vai aqui uma definição clara daquilo que é ou não é “arte verdadeira”. O enfoque é muito mais modesto. Trata-se de apresentar a confusão existente entre os conceitos de beleza e justiça e sustentar que, uma vez proprietária do discurso que diz o que é a verdade na História, uma “elite cultural” passou também a definir o que é ou não a verdadeira Arte. Foi na década de 1960 que isto ocorreu. Na filosofia imperava a desconstrução. Derrida, Deleuze, Foucault, entre outros questionando a própria linguagem, reduziram aquilo que havia de racional na comunicação a  uma simples manifestação de uma verdade maior – uma verdade simbólica incapaz de ser alcançada tanto pelo homem comum quanto pelo intelectual  “não engajado”. Só era considerada arte aquela manifestação capaz de promover “transformação social”. Foi dessa linha de pensamento que surgiram as condições necessárias para que  Sabiá, em 1968 fosse vaiada por uma plateia que preferiu um hino maoísta, Para não dizer que não falei de Flores, como vencedor do Terceiro Festival Internacional da Canção. Esse foi, na minha opinião,  um momento crucial na história da arte brasileira. Ao vaiar a obra-prima de Tom Jobim, o público brasileiro fazia uma profecia – dali em diante poderia se esperar de tudo:  desde Valesca Popozuda até o Bonde do Tigrão abriu-se a lata de lixo da MPB. Ao mesmo tempo agonizavam o cinema, o teatro e as artes plásticas. A geração de 1968 conseguiu acabar com toda necessidade de recolhimento e do esforço de um verdadeiro artista quando pretende alcançar o belo e desde aquela época até hoje o que se assiste num país com a riqueza cultural do Brasil é um festival de obscenidades e uma mediocridade incrível que prima por chocar e agredir. Essa “nova geração”, sendo incapaz de saber o que o belo, define de forma magistral o que é o feio. Ex-prostitutas, assaltantes e traficantes lotam estádios inteiros com o charme de pertencerem “a comunidade”, “ao mundo real”, e de cantarem e atuarem “sem preconceitos” porque são “gente do povo” - como se isso fosse pré-requisito mínimo para “ser artista”. Cantam, não as ruas, mas o lixo delas nas grandes cidades porque fazem a apologia da maconha, do crack e da iniciação sexual precoce da mulher brasileira.
Nossa literatura toda prima pela pornografia e desabafos de escritoras que fracassaram no casamento e na criação dos filhos. Nossos “grandes escritores” são uma vergonha num país que deu ao mundo gente como Machado de Assis, Érico Veríssimo e Mário Quintana, além de pensadores como Gilberto Freire ou Mário Ferreira dos Santos. Seu único dado de currículo é  literalmente terem sobrevivido  ao uso fanático de drogas e as tais “experiências místicas” dos anos 60.  Nossos artistas plásticos flertam com a esquizofrenia a ponto de, ao entrarmos em uma exposição,  não sabermos o que é a “obra” e o que pertence a parte do ambiente onde não passou o serviço de limpeza. Na mesma linha, o cinema nacional leva as telas a vida de uma prostituta viciada em cocaína como alguém que “venceu na vida”.
Tudo lixo...tudo mentira..e pior financiado por um Governo Federal corrupto que insiste em promover esse tipo de gente sempre, é claro, roubando tudo que pode,  inaugurando todo tipo de obra com cantoras nordestinas de minissaias  tão curtas quanto suas ideias e bobalhões com cabelo moicano cheio de gel cantando com sotaque de Ribeirão Preto.
Encerro aqui meus amigos. Que vergonha ser brasileiro nessa hora! Nietzsche achava que deveríamos buscar uma vida além do bem e do mal. Ele jamais conseguiu e morreu louco por causa disso mas o Brasil alcançou algo impressionante – uma arte além do belo e do feio, uma imundície  tão grande que não representa nada mais do que a morte da própria arte.

Porto Alegre, 25 de janeiro de 2013

cardiopires@gmail.com

Milton Pires
Médico
Porto Alegre - RS
cardiopires
Enviado por cardiopires em 25/01/2013
Código do texto: T4105041
Classificação de conteúdo: seguro

O PROBLEMA DO MAL - A NOVA ORDEM E O FIM DO TERROR

Há séculos o problema do mal aflige filósofos, historiadores e todo aquele que na condição  humana se questiona sobre o caráter tantas vezes injusto da vida. Através dos tempos as reações da sociedade aos horrores cometidos em nome do Estado, da Igreja e, acima de tudo, do poder e do dinheiro tem passado por estágios que apresentaram sempre uma característica  constante: a ideia de anormalidade, de saída da rotina e de algo que não pode ser aceito como  coloquial.

O entendimento do problema do mal  pela filosofia parte com frequência  de 3 hipóteses: o mal é um produto da vontade humana, é uma força externa, ou uma ilusão da consciência .As explicações invocam preferencialmente a injustiça social e as doenças mentais, mas não se constrangem,se necessário, em apelar até para possessão demoníaca como causa das tragédias  que a humanidade já enfrentou.
Desde a época do chamado “mal necessário à sobrevivência”, aquele que se fazia em nome dos instintos básicos e sem a presença do Estado, até a chamada “banalização” que Hannah Arendt  descreveu em “Eichmann em Jerusalém”,  a  impressão do mal como o elemento estranho a ordem social tem causado desconforto  a uma espécie que encontrou no amor e na caridade a força para superar todas as outras. Para entender este conflito que atormentou desde os selvagens até os filósofos da Escola de Frankfurt os pensadores fizeram uso de racionalizações. Santo Agostinho, por exemplo, afirmava que toda coisa que se corrompe guarda em si algo de bom,  já que se fosse perfeitamente boa não poderia se corromper e se nela não houvesse nenhum bem nada haveria a ser corrompido.
Seja justificando como fazia Maquiavel ou banalizando como fizeram Hitler e Stalin , o mal sempre se apresentou com desculpas peculiares. As grandes religiões,  nos seus conflitos com os poderes do Estado,  muitas vezes viram-se, elas próprias, acuadas. Primeiro tentaram explicar (e nunca conseguiram) como Deus, tendo criado tudo, permite a existência do mal. Segundo; como o próprio mal  pode ter sido feito “em nome de Deus”. Ao falharem abriram as portas para o Terror do Estado.
Não deixa de ser trágico, e até certo ponto cômico, que os maiores genocídios da história tenham sido realizados em nome de algo  chamado  “bem maior” (seja lá  o que isso queira  dizer) e que seus  perpetradores  tenham sido os Estados;  não os indivíduos.
Neste pequeno texto quero partir de uma premissa distinta – a ideia de que não é necessário mais banalizar a maldade como algo corriqueiro e até mesmo trivial  e  que, ainda que banalizado, o mal traz consigo a ideia de elemento alienígena a uma determinada ordem social cujas bases, não contemplam a crueldade como natural. Isso ocorre porque estas sociedades, por mais violentas que tenham sido, subordinaram seu ordenamento moral ao principio de individualidade obrigando o Estado a construir através da burocracia, da violência policial e da desinformação a condição de terror através da qual o mal se banaliza.
É nos cidadãos e não nos estados que reside a capacidade de distinguir, a priori, o bem e o mal. Mais grave que a banalização do mal é a anulação da consciência do indivíduo como única. Enquanto as pessoas tiverem uma consciência independente o mal precisa ser banalizado mas  quando a “consciência do estado” conseguir substituir totalmente a do indivíduo sem o uso da burocracia e da desinformação  isso não vai mais ser necessário porque então não haverá mais bem nem mal a se oporem.
Talvez este seja o mais importante aviso a ser dado aqueles que pensam que o problema do mundo seja a falta de fé e a banalização do mal porque Hanah Arendt viu na capacidade burocrática do estado nazista uma pré-condição necessária para que Eichmann cometesse horrores sem problema algum de consciência. O carrasco nazista acreditava estar agindo “bem” e assim sendo “tinha sua consciência em paz".
O domínio dos estados sobre os indivíduos que vivemos hoje em dia é radicalmente distinto daquele idealizado por Hitler ou Stalin. Sem apelar para uma “raça superior” ou “justiça social “ a chamada Nova Ordem conseguiu,  através do relativismo moral que lhe é peculiar, dominar toda cultura ocidental. Ela misturou as 3 hipóteses da origem do mal sem aceitar nenhuma como verdadeira. Criou-se assim uma quarta condição  em que não existe explicação alguma sobre as causas da maldade mas tão pouco existe a necessidade de uma gigantesca máquina estatal para gerar terror e,  a partir dele,  o  consenso que garante o poder.
Convivemos com pessoas que tem  toda chance de se informarem muito bem, de conhecerem (até pela internet) os detalhes da máquina burocrática do estado e com uma polícia que se prepara com cursos de psicologia e abordagem diferenciada de minorias, mas mesmo assim vivemos com medo. Parece-me que no mundo atual não há mais necessidade do terror visto que a revolução cultural permitiu criar um estado de consenso sobre temas que até então tinham sido polêmicos. São lugares-comuns a respeito de assuntos tão graves quanto a existência de Deus, homossexualismo e aquecimento global (só para citar alguns exemplos) geradores de um enorme  e poderoso acordo silencioso sobre o que deve,  ou não,  ser dito  em sociedades “civilizadas e sem preconceitos”.
Esse consenso nasce da ideia de que não devemos mais fazer determinadas perguntas e o medo que mencionei acima vem da vontade de questionar a opinião pública; não o conjunto de condições políticas ou o Estado que a construiu.
É esse o mundo em que vivemos hoje – um mundo onde o terror por parte do Estado não é mais necessário porque o medo tornou-se,  antes do próprio mal,  uma condição imanente da ordem e onde não há hipótese alguma que explique  a causa de tanta maldade .
Nasceu assim o mundo previsto por Yeats em seu “Segundo Advento” - o mundo da Nova Ordem e do fim do Terror.

Porto Alegre, 25 de janeiro de 2013.
cardiopires@gmail.com
cardiopires
Enviado por cardiopires em 25/01/2013
Reeditado em 25/01/2013
Código do texto: T4104757
Classificação de conteúdo: seguro

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A MARCHA DOS SEM HISTÓRIA - O NASCIMENTO DO HOMEM-MARCHA

O século XX foi o século da marchas. Grandes, pequenas, em nome de Deus, contra Deus, a favor e contra os diversos regimes políticos, lideradas por Trostsky, Gandhi ou Hitler, tanto faz..  Marchou-se em nome dos  sem terra, dos sem teto, dos sem escola, pelo sufrágio universal, pelo direito das minorias... Desde o voto feminino até a legalização da maconha, as ruas foram tomadas e o transito foi interrompido  praticamente em nome de tudo.

Não é preciso fazer força para perceber algo que existia em comum em todos estes movimentos: uma forte noção do seu tempo. Cada manifestante, desde 1917 até o maio de 68 sabia muito bem que marchava para que a história não se repetisse nos erros ou que mudasse em direção “a um mundo melhor”. Sabia-se que havia ontem, hoje e amanhã..que algo havia sido herdado e alguma coisa ficaria para o futuro. As pessoas ainda “tinham história”, mas aos poucos um fenômeno interessante passou a ocorrer – o conteúdo da luta passou a ser substituído pela forma. Cantando “quem sabe faz a hora, não espera acontecer” uma geração inteira – a de 1968 – misturou Sartre com Mao Tse Tung num verdadeiro delírio de ativismo em que pouco importa o motivo da manifestação; a manifestação é o seu próprio motivo.
Desde os movimentos da Universidade de Berkley até o Facebook, as marchas vem mudando num sentido  perigoso....Não existe mais, hoje em dia, como um identificar o perfil daquele que participa de uma determinada manifestação. Cara-pintada ou cara-limpa, foice ou mouse de computador na mão, nasceu  o homem-marcha: aquele que faz da marcha o seu próprio destino e que integrado na nova ordem deixou de subir montanhas e atravessar desertos porque isso não se faz mais necessário.
O ativista do seculo XXI tem na internet a sua estrada e no discurso do lugar-comum a sua bandeira. Não há valor moral a orientá-lo capaz de superar a importância do número de adesões ao seu Blog. Quanto mais seguidores alguém tem na internet, mais verdadeiro deve ser o seu discurso. Dane-se portanto todo esforço acadêmico (necessariamente individual para ser verdadeiro) e toda história pregressa. Esqueça-se o recolhimento, o poder da humildade e da oração.
A verdadeira história não existe para o Homem-marcha. Para ele, o que existe são interpretações cuja veracidade é conferida por aquele botão da rede social: “curtiu” ou “não curtiu”. Vítima da desconstrução, do estruturalismo e outras escolas de pensamento que beiram a esquizofrenia, o ativista do século XXI é uma “interpretação em busca de um fato”. Ele jamais vai aceitar que 1968 não é o “ano que não acabou”, mas sim o ano que “jamais deveria ter começado”. Não há legado algum deixado pelos doentes  que misturaram filosofia com LSD e se revoltaram contra a Guerra do Vietnã apoiando o maoísmo, e é esse o berço do homem marcha.
Ainda criança o homem-marcha foi abusado por Focault e abandonado por Derrida. Adolescente, sua primeira camiseta tinha uma foto de Che Guevara. Defendendo o Sistema Único de Saúde mas com um bom convenio para sua família, ele hoje acredita na Revolução Cubana e frequenta a Quinta Avenida em Nova York enquanto seus filhos dirigem a UNE (União Nacional dos Estudantes) sempre com orientações de José Dirceu.
Vagando de blog em blog e  dormindo em redes sociais diferentes o homem-marcha se move como um fantasma pela internet sempre buscando uma “causa para sua interpretação”. Bolsista de si próprio, acredita que a História tem uma dívida com ele e no dia do grande acerto de contas  a suas  respostas  vão  estar na ponta da língua - elas aguardam apenas a pergunta certa.
Questionado sobre Deus, ele afirma acreditar “numa energia superior”. Abordado na sua opinião sobre os homossexuais ele diz que sexo é “uma opção de cada um”. Perguntado a ele qual o maior risco que a raça humana enfrenta hoje em dia a resposta imediata é “o aquecimento global”.
Verdadeiro morto-vivo da nossa época  o homem-marcha é um prisioneiro. Sua cela não tem tempo nem espaço próprios. Ele se debate entre as flores do movimento hippie e as marretas que derrubaram o Muro de Berlim, e chora trocando as letras dos Beatles com Michel Teló. Suas bandeiras  trazem dois lemas – “isso sempre foi assim” e “eu não sabia de nada”.
Pobre homem-marcha que caminha num mundo virtual procurando “companheiros”para ajudar a formar a última marcha da sua vida..A Marcha dos Sem História.

Porto Alegre, 11 de janeiro de 2013.

Milton Simon Pires
cardiopires@gmail.com
cardiopires
Enviado por cardiopires em 11/01/2013
Código do texto: T4079495
Classificação de conteúdo: seguro

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Big Brother Brasil 13 – Elogio da Estupidez.

Em 1830 a prostituição foi legalizada na Holanda. Os argumentos a favor foram vários – desde o fim da violência contra as mulheres até as antigas tradições portuárias da cidade de Amsterdã, não faltou motivo para justificar o reconhecimento da “profissão mais antiga do mundo”. Duvido que naquela época alguém pudesse imaginar que em 2013 o país fosse apontado pela Organização das Nações Unidas como um dos principais destinos do tráfico de seres humanos. Da mesma forma, não é fácil entender como, da terra de Van Gogh, Erasmo, Rembrant, e da Seleção de Futebol de 74   tenham surgido dois picaretas como John de Mol e Joop van den Ende. Em 1994 estas criaturas  fundaram uma empresa chamada Endemol e é a ela  que devemos essa “coisa” chamada “Big Brother Brasil” - o BBB.

A maioria daquilo que tem sido escrito sobre o BBB na internet varia muito pouco. São críticas ferozes como um bicho de pelúcia ! Elas  tem como fundo ou uma mistura de sociologia e psicanálise temperadas com o marxismo esquizofrênico da Escola de Frankfurt,  ou simples “colunismo virtual” - descrições daquilo que acontece na “casa mais vigiada no Brasil”.
Nestas linhas quero me propor uma outra tarefa: vou chamá-la de “Introdução ao Estudo da Estupidez”. Quero esquecer os interesses da Rede Globo, a anencefalia dos participantes ou o desespero da empresa holandesa que, afundada em dívidas, não encontra mais ninguém na Europa para comprar o seu lixo. Não...minha intenção aqui é outra – falar sobre o sucesso do programa no Brasil da “companheirada”. Imagino que para demonstrar cultura deveria mencionar o livro de George Orwell ou definir  quem  era originalmente o Grande Irmão. Não se enganem com o texto porque aqui não tem nada disso! Meu recado vai ser curto e grosso – o sucesso dessa porcaria é tão grande porque o Brasil é aquela casa ! Ninguém ali está fingindo ou sendo diferente do que “é lá fora”. Muito pelo contrário; a naturalidade  das pessoas é tanta que nos momentos de desespero precisam negá-la com lágrimas de crocodilo afirmando: “isso aqui é só um jogo..”.
Hipnotizado, um país inteiro vigia os “heróis do  Bial” enquanto esquece  de si mesmo. Esquece o Mensalão, os mortos nas estradas, as pessoas agonizando nas emergências imundas do SUS, os professores com salário de fome e a polícia infestada de bandidos. Até aí, tudo bem, ou melhor:  tudo mal, mas não há novidade em  escrever na internet que a televisão brasileira aliena as pessoas. Muita gente já fez isso antes de mim e há uma legião de pensadores universitários petistas pronta para ganhar bolsa de doutorado falando mal da Rede Globo. Talvez esse discurso ainda funcione com a novela das oito e com o Carnaval, mas  com o BBB a coisa é diferente. Eu sustento que ele não aliena ninguém.
Pela primeira vez me vejo obrigado a concordar com os filósofos de botequim que afirmam que o “povo é isso aí mesmo”.  O que este programa parece ter conseguido, e aí sim inovou , foi criar uma espécie de moto contínuo, um ciclo interminável em que é possível se tornar mais estúpido a medida que todos juntos, contemplamos ao vivo a miséria da  nossa própria estupidez. É o consenso “sem medo de ser feliz” e  forjado na ignorância que legitima  a atuação daqueles pobres diabos comportando-se como ratos de laboratório, abrindo mão de sua dignidade, despindo-se de seu pudor, diluindo a sua individualidade num mundo sem referência de certo ou errado..num mundo que “é só um jogo” e que só se torna real nas intervenções de um comentarista bobalhão que poderia sem dúvida ser um dos ganhadores do prêmio.
Termino por aqui porque tenho medo de me tornar mais burro simplesmente pensando sobre este assunto.”Big” é o nosso país, 13 é o número do “Grande Ladrão” e “Brothers” somos todos nós.  Meu recado final é o seguinte – nada mais justo que BBB todo mês de janeiro. O BBB foi inventado na Holanda – país que legalizou a prostituição e onde se escreveu o “Elogio da Loucura.”  Seu sucesso no Brasil é inevitável;  este é o país em que a lei se prostituiu e onde se está escrevendo o “Elogio da Estupidez”.

Porto Alegre, 8 de janeiro de 2013

Milton Simon Pires
Médico em Porto Alegre
cardiopires@gmail.com

cardiopires
Enviado por cardiopires em 09/01/2013
Reeditado em 10/01/2013
Código do texto: T4075875
Classificação de conteúdo: seguro

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O FIM DO HOMEM E A ÚLTIMA HISTÓRIA

Raros são os exemplos, dentre os filósofos brasileiros, de pensadores empenhados na defesa do indivíduo. Para cada Olavo de Carvalho existem inúmeras Marilenas Chauís, e podem ser contados nos dedos de uma mão as críticas atuais  à nova ditadura de costumes que assola o país: o “politicamente correto”. Talvez o mais assustador nesta patologia da cultura não seja aquilo que ela expressa, mas sim  o que ela  esconde.

Vivemos numa sociedade  em que nada pode ser mais temido do que uma opinião independente. É necessário ajustar-se rigorosamente a todos os pseudo conflitos que a “mídia amiga” faz questão de noticiar diariamente. Assim, embora não seja evidente a primeira vista, existem opiniões prontas as quais devemos recorrer para não sofrermos a “exclusão social de nossas ideias”. Frases feitas sobre Deus, conduta sexual, pena de morte e aborto (só para citar alguns exemplos) invadem nossos computadores, telefones celulares, iPhones e redes sociais de uma maneira capaz de anular o indivíduo na mais humana das suas dimensões – a histórica.
A sociedade brasileira internalizou de maneira tão forte a “luta contra os preconceitos” que abdicou da capacidade de formar juízos “a priori”. Não existe mais valor ou tipo de vida  boa, justa, ou bela  cuja busca atormentava os gregos. Tudo é hoje  vítima do relativismo e a ideia de testar hipóteses, importada do pensamento cientifico, tende a fazer com que toda ética contemporânea torne-se, como disse Jorge Luis Borges, um ramo da estatística. Nesse processo de abdicação da sua individualidade, o homem contemporâneo vem sendo massacrado pelos conceitos emprestados de dois discursos: o marxista e o psicanalítico. Caso eu me manifeste com pensamento independente devo ser visto como um possível “doente mental” ou como “representante de alguma elite”. Não vão faltar aqueles que pensam que vou invadir algum MacDonald's com um fuzil ou que tenho interesses econômicos sustentando minhas ideias.
 Responsáveis pela relativização dos valores fundamentais à nossa civilização, Freud e Marx são perigosos para independência da filosofia pela sua capacidade de expressarem  cosmovisões, ou seja, teorias que operam no domínio da totalidade . No marxismo toda atividade humana e a cultura que sobre ela se edifica são frutos da luta de classes; na psicanálise a causa é a repressão. Não existe nestes dois sistemas um espaço verdadeiro para o ato de filosofar. Explico por que, mas primeiro algumas definições: entendo “filosofar” como buscar a verdade e entendo verdade como concordância entre a razão e o seu objeto de contemplação. Se parto a priori destes princípios torna-se evidente que o ato de conhecer é produto de uma consciência individual.
Não existe conhecimento completo a ser compartilhado plenamente por que não é possível transformar toda espécie humana numa consciência única. Abordei este assunto num artigo anterior chamado A Questão da Verdade e a Obsessão pelo Consenso, mas meu objetivo aqui é outro. Trata-se de fazer um alerta para o fato de que a adesão a qualquer sistema de pensamento que explique a história “como um todo” anula o ser humano individualmente transformando-o num autômato para quem todas as causas e efeitos  possíveis já foram fornecidos. As duas grandes experiencias totalitárias do seculo XX, o comunismo e o fascismo, são ricas em exemplos de prisioneiros de Hitler e Stalin que compartilhavam o fato de não terem história. Reunidos como animais, estes homens, mulheres e crianças foram vítimas de fanáticos que usaram de sistemas totais para explicar a realidade e seus males apontando soluções que habitam nossos pesadelos até hoje.
Em 1992, Francis Fukuyama acreditou que a história tinha chegado ao seu fim. Ele pensava que o capitalismo tinha superado todos os fatores e contradições capazes de justificar a emergência de um mundo   socialista. Ironicamente, suas próprias teorias me parecem comprovar o contrario pois se é verdade que um dos sistemas venceu ele o fez sobre os indivíduos e não sobre hipóteses. A mensagem assustadora que fica daí é que nos confrontamos, cada um de nós e definitivamente  sozinhos, com uma tarefa tão grande quanto antiga: a mudança de consciência. Seja lá o que isso signifique, ou qual o caminho para alcançar, me parece a única solução para fugir do “fim do Homem” e para não ser esta a “Ultima História”.

Porto Alegre, 3 de janeiro de 2013

Milton Pires
cardiopires@gmail.com
cardiopires
Enviado por cardiopires em 03/01/2013
Reeditado em 04/01/2013
Código do texto: T4066198
Classificação de conteúdo: seguro