"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

terça-feira, 5 de março de 2013

O Estado em vez do Indivíduo – Sob o Domínio do Medo

 



Publicada pela primeira vez em 1923 A História do Medo no Ocidente, de Jean Delumeau, deteve-se na análise de um período que se estendia basicamente entre 1348 a 1800.

Pestes, demônios, heresias, os padres, as mulheres..o livro é uma espécie de crônica daquilo que habitava o inconsciente do mundo ocidental no sentido de provocar pavor. Não se pode afirmar dele que seja um livro político. Tão pouco é possível dizer que seja uma obra capaz  de identificar em algum regime de poder específico a fonte original do medo numa determinada época.
Do ponto de vista médico o medo é uma experiência que se define física e psicologicamente. Corresponde a um estado em que, antecipando-se a um perigo real ou imaginário, o corpo prepara-se para uma resposta conhecida como “luta ou fuga”. Emocionalmente, esta sensação é denominada ansiedade e, atendendo ao princípio  da evolução, representa uma resposta  fundamental no sentido da preservação da vida e da espécie.
Muito pouco, até onde eu sei, se escreveu sob a capacidade do Estado ser, por si mesmo, a fonte do medo da sociedade. É claro que existem obras a respeito dos crimes e atrocidades cometidos durante guerras e conflitos sociais. Períodos como o do Terror, na Revolução  Francesa, ou dos regimes totalitários também foram abordados, mas a chamada sensação de insegurança existente nas supostas situações de “estabilidade” não costuma ser tema de debate frequente.
Neste pequeno artigo vamos falar sobre o medo lembrando em primeiro lugar que, segundo Rosseau, uma sociedade se organiza através de um contrato em que os indivíduos abrem mão de um determinado tipo de liberdade – a natural – para através do consenso e da cooperação alcançarem aquilo que se chama liberdade civil.
A liberdade civil nos permitiu, através da vida em comum, a organização e o trabalho solidários capazes de superar a “soma de todos os medos”. A respeito desta noção de contrato, tão antiga nos dias de hoje, há um fato frequentemente esquecido: sua manutenção não é espontânea. Em outras palavras, são necessários aqueles “aparelhos de Estado” mencionados por Althusser (num sentido muito diferente daquele que uso aqui)  para que as liberdades civis sejam garantidas. A ilusão de um “Estado pronto” e sem “necessidade de manutenção” bem como as consequências de acreditamos (como hoje em dia) em tamanho absurdo é abordada magistralmente por Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas.
Ordem e segurança foram há muito tempo identificadas por Sigmund Freud como produtos de uma necessidade básica de repressão. É desta repressão que surge a possibilidade da cultura e do progresso numa sociedade. Não há, pois, a hipótese de uma vida em comunidade sem que os instintos mais primitivos sejam contidos em nome de algo que se convenciona chamar de “bem comum” (seja lá o que isso signifique num lugar e época específicos). Desta noção, que frequentemente habita o inconsciente de cada um, que é incapaz de ser compartilhada, ou mesmo descrita, supõem-se o nascimento de uma vontade – a vontade geral – que decorre do reconhecimento passivo do sofrimento do outro, da identificação do seu medo com o dele, e da possibilidade de alívio e consolo no diálogo e no esforço coletivos.
Mesmo percebendo que não escrevi nada de novo é necessário reconhecer que a sociedade só é viável quando neste processo de sofrimento que apresentei existe uma força chamada esperança. Sustento também (numa teoria que, aí sim, considero muito minha) que a faculdade de filosofar não é uma atividade exatamente civil. A filosofia, a meu ver, nasce antes da própria sociedade. Surge quando, abandonado a seu próprio destino e sem ninguém para dividir a angústia, o homem percebe que vai morrer. A razão no discurso fílosófio é, portanto, uma razão natural que antecede ao próprio conceito de civilização.
É da angústia  que decorre a ânsia pela comunicação, a possibilidade do diálogo e da polêmica. Neste sentido, o livro de Delumeau é pródigo em mostrar que, através da história, para cada fonte de medo os homens buscavam um determinado caminho de salvação.
Reais ou fictícias, muitas vezes mais danosas do que o problema enfrentado, as soluções variaram muito mas no  controle das forças da natureza, da ira de Deus ou da doença, tinham em comum uma fé que, em primeiro lugar, direcionava-se ao seu semelhante. Foi esta fé que se perdeu. Acreditamos há muito tempo que hoje deve ser o Estado o nosso grande Irmão..Achamos inclusive que foi da emergência dele (o Estado) e da vida em sociedade que surgiu esta condição de “grande família”.  Nos enganamos perigosamente quanto às relações de causa e efeito colocando no chamado “Estado de Bem Estar Social” o fundamento da compaixão e da solidariedade que nos permitiram chegar até aqui.
É quando  este mesmo Estado, seja qual for o seu regime político, começa a mostrar a sua incapacidade de se comover, de chorar, ou de  sofrer... quando mostra que não tem sexo nem cor, ou quando resta evidente para um simples indivíduo que nascer, viver e morrer não se aplicam a esta entidade invisível,  que a natureza vem  cobrar   seu preço.  A história então parece mostrar que um dia acreditamos em nossos semelhantes, que nos reunimos e acreditamos em Deus, que juntos construímos o Estado e  que, quando terminada a obra,  esquecemos primeiro Deus; depois o próprio indivíduo.
Se é verdade que sozinhos vivemos na angústia,  na sociedade atual sofremos a desgraça da impossibilidade de um pensamento filosófico original. Órfãos da razão natural e prisioneiros das liberdades civis, não temos mais nenhuma capacidade de recolhimento - condição a priori da verdadeira filosofia.
Vive-se então sem esperança ou futuro numa rotina  atomizada..num mundo em que não acreditamos em mais ninguém e no qual, ironicamente, nunca foi tão fácil se comunicar, enfrentar a natureza ou as doenças..A verdade, que antes definia-se como a concordância da razão com o seu objeto, passa a ser prisioneira do tempo e da opinião pública.
Nada do que já passou pode ter valor..Nada daquilo que eu percebo sozinho pode ser verdadeiro...
Vive-se isolado e sob o domínio da desconfiança numa comunidade virtual  sem ontem nem hoje  na qual  os dias sucedem às  noites, num pesadelo que é um eterno presente ..num limbo em que não se percebe a existência do outro mas em que também não se pode pensar sozinho...
Vive-se sem a possibilidade da filosofia...Vive-se sob o domínio do medo. ..

Porto Alegre, 4 de março de 2013.
cardiopires
Enviado por cardiopires em 05/03/2013
Reeditado em 05/03/2013
Código do texto: T4172754
Classificação de conteúdo: seguro

sábado, 2 de março de 2013

Controle de Imprensa – Emir Sader e as Ilusões Garantidas.


Ilusões Perdidas é uma das obras primas de Balzac. Romance que tem como personagem principal o jovem Lucien Chardon, é uma crônica social da França do século XIX no período da Restauração. Narra principalmente a decepção do jovem poeta interiorano que, em meio a hipocrisia de Paris e tendo falhado como escritor, procura no jornalismo o  caminho para o sucesso. Sem Lei de Imprensa ou Fórum Nacional para Democratização das Comunicações,  imagino que o sofrimento de Lucien ao enfrentar os interesses da mídia privada seria um prato cheio para o nosso Emir Sader quando  escreveu "Imprensa livre é imprensa privada?" (Emir Sader – Carta Maior – 28/10/2009). Ontem, dia primeiro de março, o Diretório Nacional do PT manifestou-se mais uma vez sobre o tema e, naquilo que se chama “aviso da história”, deixou  explícitas as suas intenções sobre o assunto. Para sabermos se existe ou não risco de censura no Brasil petista não é sobre a natureza da democracia nem sobre a função social da imprensa que devemos pensar. A relação entre sociedade livre e imprensa independente está suficiente estabelecida pela história. Na internet, a página da Embaixada Americana no Brasil deixa muito claro que "Numa democracia, a imprensa não deve ser controlada pelo governo. Os governos democráticos não têm ministros da informação para decidir sobre o conteúdo dos jornais nem sobre as atividades dos jornalistas; não exigem que os jornalistas sejam investigados pelo Estado; nem obrigam os jornalistas a aderir a sindicatos controlados pelo governo." Nesse sentido, não é sobre Rosseau, Voltaire, ou Jeremy Bentham que vamos falar aqui para entender a questão da liberdade de imprensa do ponto de vista histórico e filosófico. Vamos, isto sim, recorrer a um filósofo contemporâneo chamado Isaiah  Berlin que,ao discorrer sobre liberdade, afirma que esta é basicamente o  “direito de ser deixado em paz”. Este conceito, na obra de Berlin, chama-se “liberdade negativa” em oposição à capacidade do sujeito, através das suas próprias ações, de exercer aquilo que pensa ser a sua liberdade – liberdade esta “positiva”.

Fiz esta breve introdução para dizer que é este, ao meu ver, o “armamento teórico” que alguém precisa portar se quiser enfrentar o Partido dos Trabalhadores no que se refere a questão do controle de imprensa. O que se impõem, para não ser enganado, é voltar no tempo e  compreender, em primeiro lugar a natureza totalitária de uma organização criminosa que, misturando marxismo com religião e o submundo do sindicalismo paulista, apresentou-se como partido político e agora governa o Brasil há 10 anos! Mesmo que quisesse (e não quer) o PT não pode permitir uma imprensa livre por que esta é incompatível com seu plano de poder e de controle da informação na sociedade. A imprensa, segundo a concepção petista, não tem função de informar ninguém. Seu objetivo único é servir como órgão de propaganda e, conforme escreveu Adolph Hitler em 1926,"A propaganda política busca imbuir o povo, como um todo, com uma doutrina... A propaganda para o público em geral funciona a partir do ponto de vista de uma idéia, e o prepara para quando da vitória daquela opinião."  A estratégia para que se busque um consenso  a respeito da necessidade de um controle “social” sobre os órgãos de comunicação tem como fundamento o ensinamento de Lenin quando este sugere “acusar o inimigo de tentar fazer exatamente aquilo que VOCÊ quer fazer”. Assim quando Sader pergunta se uma imprensa privada é uma imprensa livre a resposta rápida deve ser uma só: existe apenas  um tipo de verdadeira imprensa – a privada ! A outra, e isso intelectual petista não diz, não é imprensa mas sim órgão de propaganda. Invocando os desmandos dos maus jornalistas, lembrando a imprensa comprada, citando os falsos escândalos, o que esse tipo de gente cria é, na verdade, um falso dilema e coloca o país inteiro, mais uma vez, sob risco de retorno da censura. São páginas e mais páginas escritas por militantes do PT que, disfarçados de jornalistas, propõem uma espécie de AI-13.
O que torna um governo verdadeiramente democrático, e isso o governo do PT nunca vai ser, não é a origem do seu poder mas sim os seus limites. Ou o Brasil inteiro compreende isto rapidamente ou alguém como Emir Sader vai ter  as suas ilusões, por muito tempo,garantidas.

Porto Alegre, 2 de março de 2013.
cardiopires
Enviado por cardiopires em 02/03/2013
Código do texto: T4168448
Classificação de conteúdo: seguro