"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

terça-feira, 29 de abril de 2014

O BÊBADO E O EQUILIBRISTA – ENSAIO SOBRE A BEBEDEIRA


Milton Pires

De tudo que até hoje se escreveu a respeito da origem da filosofia, nenhuma explicação pode ser mais marcante, mais completa e verdadeira do que a que diz ter ela nascido da nossa capacidade de se espantar. Tão completa e abrangente, tão justa e simples parece essa proposição que inevitável seria pensar ser possível sua utilização em outras áreas do conhecimento. Nenhuma estranheza, portanto, causaria a afirmação de que o nível de consciência política de uma sociedade, sua capacidade de indignação e reação tem a mesma fonte da indagação filosófica: o espanto.
Aceitos os princípios acima, proponho agora uma inversão a ser aplicada, pelo menos, no território da consciência política do brasileiro mediano: afirmo ser o espanto, em determinados casos, a marca da nossa ignorância, da nossa imaturidade e da nossa apatia.
No último dia 26 de abril, Lula deu em Portugal declarações a uma jornalista que grande repercussão causaram. Sem maiores preocupações afirmou ter sido o julgamento da Ação Penal 470 “80% político e 20% jurídico” e disse ainda que que embora haja "companheiros do PT presos, não se trata de gente da sua confiança".
Nenhum interesse tenho aqui em discorrer sobre quem seja ou não da “confiança” de Lula. A declaração só foi importante num único sentido – na demonstração de indiferença, de superioridade e arrogância com que o Partido dos Trabalhadores trata a base da sustentação da “ordem e da paz pública” no Brasil: o Poder Judiciário. Mesmo assim, lembro mais uma vez ao leitor não ser esse o ponto “nevrálgico” dessas linhas e resumo o que quero apresentar na seguinte frase: “muito me espanta e decepciona o espanto de todos os outros ao ouvir de Lula tais palavras”. Nesses outros a que me refiro incluo o próprio Supremo Tribunal Federal e seus integrantes que agora, com ares de donzela chocada, repudiam as declarações criminosas do ex-presidente da República fingindo não saber que a característica fundamental da relação do PT com Estado de Direito sempre foi a promiscuidade. Inúmeras foram as vezes em que essa organização criminosa, disfarçada de partido político, deixou claro seu respeito à Constituição nas situações que lhe convém e sua indiferença e repúdio a tudo que reza a Lei quando contrariados foram os seus interesses.
A única e verdadeira lição a ser tirada sobre as declarações de Lula é que divide-se a opinião pública em duas partes: uma gigantesca e outra desprezível. Excluída a ínfima parcela de gente que sabe que o PT não precisa de sigilo sobre o que gasta, mas sobre aquilo que é, a outra (incluídos aí os juízes do STF) finge o “espanto dos primeiros filósofos” e vem a público indignada ou fingindo-se indignada com afirmações de pessoas que jamais deram qualquer importância ao Estado de Direito.
Em toda história do Brasil, não conheço episódio anterior em que um ex-presidente da República, em declarações em território estrangeiro, tenha feito pouco da justiça da Nação. Vindo de alguém que se preocupa em não causar “constrangimento” à Fidel Castro tocando no assunto dos prisioneiro políticos cubanos a declaração de Lula é uma cusparada na cara do país, uma vergonha para o STF e para todos os juízes brasileiros que agora, a exemplo dos médicos e dos policiais, são ridicularizados perante o mundo. Graças a Lula e ao PT o mundo hoje sabe que nossos médicos “precisam ser mais humanos”, nossos policiais “menos violentos” e que os nossos juízes precisam julgar “menos politicamente”.
A desgraça, a maior tragédia de tudo o que descrevi é que Lula continua em liberdade e seu partido, aproveitando-se de uma democracia doente, disputando eleições. O PT a tudo atravessa impávido, como aquele equilibrista de Nietzsche que, na corda bamba, estava acima do bem e do mal. No caso do Brasil é o Grande Alcoólatra que segue se “equilibrando” acima da inocência e da culpa; bêbados estamos todos nós..

Porto Alegre, 29 de abril de 2014.  

segunda-feira, 28 de abril de 2014

CRESCER NA ADVERSIDADE


"Quem me conhece sabe que eu cresço na adversidade"

Alexandre Padilha. Roda Viva de 28/04/14

"É por isso que eu quero colocá-lo na cadeia: para ver você se tornar um gigante"

Milton Pires. Nesse Blog e nessa data

A VOLTA DO LULA


AS BUNDAS


As Bundas..

Milton Pires

Oh bunda da
boa do bando
que bebe
Bundas boas,
boas bundas
Bundas boladas
mas nunca boiolas
Nem bundas de bibas
nem bobas de bunda
Quem beija só bunda só
pensa na “bimba”
Termina casando por
bodas de bunda...

Porto Alegre, 28 de abril de 2014.

sábado, 26 de abril de 2014

RESPOSTA À MARCIA TIBURI – A MARILENA DOS PAMPAS.


Milton Pires


Prezada professora, acabo de receber em casa a Edição 189 da Revista Cult, publicação que, num ato de desatino e, privado por algum motivo daquilo que considero ser meu juízo perfeito, fiz a bobagem de um dia assinar. Avidamente li seu artigo que, na página 57, leva o título de “Unheimliche Político”e perplexo percebo que a senhora, a exemplo de relações que só Alexander Dugin conseguiu encontrar entre a Ontologia e a Política, conseguiu por seu turno o mesmo fazer no que diz respeito à Política e à Estética. 
Esperando não tomar seu tempo, não me detenho aqui sobre a etiologia dos distúrbios psiquiátricos que afetam o senhor Dugin nem pretendo abordar sinais e sintomas que respeito digam à escrita dessa aberração que ele mesmo chamou de “Quarta Teoria Política”, mas não posso privar a mim mesmo de alguns comentários feitos pela senhora no que tange ao aperto de mão entre Lula e Paulo Maluf. Peço licença pois, para deixar para o fim, alguns comentários relacionados às manifestações de junho de 2013 que, segundo a senhora, protagonizadas foram pelos “pobres, os repudiados e os negros.”
Não sendo eu um filósofo e tampouco a senhora uma médica, a igual distância acredito nos encontrarmos daquilo que diz respeito à obra de Freud. Em breves palavras digo apenas que, de tudo aquilo que foi escrito por ele, absolutamente NADA pode se considerar com seriedade no campo da filosofia da politica. Jamais foi essa sua ideia original quando da elaboração da ideia do “inconsciente” e muito menos sua pretensão. Grave erro, portanto, me parece usar de conceitos psicanalíticos para explicar o que pertence propriamente ao espaço político..Mais trágico ainda é interpretar o aperto de mão entre dois parasitas de um país que só tem um partido (o PT) como o retorno ao debate público dos conceitos de “direita” e “esquerda”. É em Maquiavel que a senhora deve buscar o discurso e os conceitos necessários para abordagem desse fenômeno; não em Freud. Mesmo que seu artigo tenha como objeto o efeito do fato sobre a opinião pública e não ele em si mesmo, menos indicado ainda é utilizar-se de conceitos originalmente direcionados ao indivíduo para tentar entender o que se passa com a sociedade. Não foi “unheimliche” algum, professora, aquilo que sentimos assistindo àquela cena. Não passa de nojo o que um brasileiro moralmente bem constituído e honestamente informado pode e deve assistir quando olha cena tão repugnante. Não use de sua cultura e não invoque conceitos que a senhora não domina para confundir os seus leitores. Marilena Chauí a antecedeu e seus livros hoje se compram em sebos e balaios de saldos. 
No que diz respeito aos “pobres, negros e repudiados” professora, que eu prometi para o fim deixar, concluo com aviso ainda mais duro: vá enganar seus pares e alunos dentro da universidade e não minta para aqueles que sabem quem planejou e executou o lixo que o Brasil viu em 2013. Seus negros, seus pobres e repudiados estavam de rosto coberto por máscara, com tênis Nike e iPhone na mão quebrando e incendiando a propriedade daqueles que no outro dia precisavam trabalhar. Fizeram isso financiados pelo mesmo Partido de assassinos que bolsas de doutorado paga aos seu alunos sempre para que produzam esse tipo de lixo que a senhora escreveu e a Revista Cult publicou. Para lhe dar resposta estarei sempre aqui: a senhora não será a Marilena dos Pampas. 

Porto Alegre, 24 de abril de 2014.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O PRIMEIRO CRIME DE GUERRA


Milton Pires

Em toda história da humanidade, em toda época e em qualquer tempo, jamais houve sociedade que deixasse de prever, por parte do seu ordenamento jurídico, o crime de “traição à Pátria”. Não nos interessa aqui o conceito de “Pátria”. Palavra tão batida..conceito tão vilipendiado, que perdeu já todo seu sentido. A noção que um brasileiro pode ter desse termo se confunde com a ideia de nacionalismo fanático, com a propaganda contra xenofobia e com a oposição ao regime militar – época em que ainda fazia algum sentido usá-la.
De todas as barbaridades que vem acontecendo no Brasil petista...de tudo que escandaliza e que choca..considerando-se os agentes cubanos disfarçados de médicos, a agenda gay nas escolas, a humilhação das religiões, ou a tragédia feita com as estatais..nada se compara àquilo que fez o Deputado Ney Lopes (PMDB-RN), autor do Projeto de Lei Complementar 276/02 que possibilita ao Ministro da Defesa e aos chefes das Forças Armadas autorizar o trânsito e a permanência temporária de forças estrangeiras no país.
Sob o argumento de que “o objetivo da medida é diminuir a burocracia envolvendo a autorização para a entrada de tropas, navios e aviões militares no país, uma vez que é frequente sua passagem de pelo espaço territorial brasileiro”, Lopes conseguiu agilizar os trâmites que vão permitir a presença, por exemplo, de policiais de Moçambique no RJ durante os jogos da Copa do Mundo.
Não encontro palavras para descrever a sensação de estupefação que tive ao ler essa notícia quando publicada pela própria Agência Brasil. Vergonha é o único termo que me ocorre no momento para definir o que essa anomalia política, essa substância corrupta que, conforme a água, toma a forma de seu recipiente e que se chama PMDB, fez com a soberania da nação. Não há um só almirante, general ou brigadeiro honrado que, se esse adjetivo merecem, possa nesse momento escapar da sensação de humilhação..do sentimento de vergonha e desmerecimento que a escória petista nesse momento lhes impõem. Não bastou a essa ralé humilhar os médicos, bater nos professores, aparelhar a polícia federal e levar fome ao Exército. Esses marginais precisam mais: eles querem garantir a segurança durante a Copa com militares estrangeiros...com o lixo socialista que agora vem de Moçambique para policiar cidadãos brasileiros.
Uma lição espero ser tirada desse fato..mais um na enorme lista de barbaridades que o Partido-Religião vem fazendo com os brasileiros: O PT jamais teve, tem ou vai ter absolutamente qualquer forma de respeito ou consideração com a Constituição Federal. Não vou perder tempo escrevendo sobre o que diz a Carta Magna sobre o poder de polícia em território nacional nem tão pouco sobre o emprego das Forças Armadas no nosso país. Nada disso interessa a esse maldito partido que superou o General Figueiredo quando o mesmo afirmou que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro do povo. Ele ao menos fazia diferença entre os dois. O PT; nem disso é capaz mas sabe perfeitamente resguardar-se da crítica usando gente do PMDB para fazer o mais sujo de todos os trabalhos...para cumprir a mais vil das tarefas – aquela em que se precisa trair a Pátria perante o mundo todo e trazer policiais de fora para fazerem cumprir nossas próprias leis.
Em tempo de guerra, e em guerra estamos todos contra essa organização criminosa que governa o Brasil, traição é crime a ser punido com a pena capital. Em outro lugar e em outra época, um parasita como Ney Lopes seria preso e sumariamente fuzilado por abrir as portas do território nacional às forças inimigas. Desgraçados dos brasileiros, sequer em guerra percebem que estão e ainda dispensam honras e prerrogativas de deputado a esse que preso deveria estar.
Graças a Deus já não integro mais força militar alguma. Já me basta a humilhação de ser médico num pais cujo governo me considera – a mim e a meus colegas – como um ser sem “humanidade” suficiente para atender nossos próprios pacientes. Chegou agora a vez dos policiais e das nossas forças armadas levarem a sua cuspida na cara com o PT trazendo bandidos de Moçambique para fazer seu “trabalho sujo” durante a Copa. Inimigos continuam chegando ao país, mas dessa vez armados e com colaboração do nosso congresso..Traição é o nome que isso merece! Surge no Brasil o primeiro crime de guerra...

Dedicado ao amigo Rodrigo Simões Lemos Dias..

Porto Alegre, 24 de abril de 2014.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

POEMINHA DA ROSE


Por Milton Pires
Oh musa dos sindicalistas
Do Barba que chora e que sonha
Contai-nos do teu paradeiro
Cadê Rosemary Noronha?

Na imprensa deixastes teu rastro
Zombastes da nossa vergonha
Silêncio não cala meus versos
Cadê Rosemary Noronha?

Gastastes no corporativo..
Tudo que o meu povo sonha..
Viajastes, fizestes sucesso
Cadê Rosemary Noronha?

Brincastes de primeira dama
Do Lula mordestes a fronha
Fugistes é mais do que certo..
Cadê Rosemary Noronha?


PORTO ALEGRE, 21 de abril de 2014.

A CONTRA-REVOLUÇÃO CULTURAL



Milton Pires

De todos os erros, arbitrariedades, prisões, desaparecimentos e torturas que possam ter sido cometidos pelo Regime Militar no Brasil, nenhum foi tão grave, por nenhum pagamos tanto até hoje, como àquele que diz respeito ao abandono da cultura no Brasil.
Entre 1964 e 1985 – tempo que durou o governo das Forças Armadas (FFAA) – a esquerda “pintou e bordou”com aquilo que pensavam os brasileiros à respeito da educação, segurança e saúde traduzindo sua hegemonia num discurso em que o adjetivo “social” somado a cada uma dessas palavras refletia a vitória do marxismo como cosmovisão..como forma de – muito mais do que governar – definir o que as pessoas deveriam pensar. Necessário é esclarecer como isso se fez lembrando que até muito recentemente não existiam no país nenhum dos chamados “movimentos sociais” que hoje tanto sucesso fazem em nome de praticamente qualquer causa. Reconhecer que o Partido dos Trabalhadores (PT) não nasce da união de movimento social algum mas que são exatamente esses movimentos e Organizações Não Governamentais (ONGS) que nascem do PT é, pois, fundamental para compreender corretamente o que se passou numa época em que as crianças guardavam o fogo simbólico nas escolas (durante a semana da Pátria) mas cantavam músicas de Chico Buarque nas aulas de Educação Moral e Cívica.
Não tenho, e espero que vocês também não, nenhuma dúvida sobre o valor e a importância daquilo que as FFAA fizeram em 1964. O Brasil foi salvo da implantação, pela força, de uma verdadeira Ditadura do Proletariado. Nenhuma mentira é, portanto, maior do que aquela que apresenta gente como José Dirceu, Dilma e Genoíno como defensores da democracia..como gente que foi presa e torturada tentando defender a “liberdade no Brasil”. Bem sabido já é, por aqueles que hoje se opõem ao PT no país, que tudo isso é mentira mas poucos percebem que essa gente só perdeu na disputa pelo poder enquanto que, no campo cultural, derrotou de forma vergonhosa tudo e todos que tentaram à ela se opor.
Cada vez que alguém tentar formar um novo partido político, movimento social ou marcha cujo fim seja derrubar o governo petista deverá ter sempre em mente, em primeiro lugar, o que descrevi nos parágrafos acima. O que sustenta esse regime de poder no Brasil já não é mais o dinheiro da cocaína das FARC ou escândalos de corrupção dentro das empresas públicas...Já não se precisa de fraudes em urnas eletrônicas nem programas de “bolsas” ou cotas para minorias. O PT tem hoje sua força e encontra seu maior apoio num sentimento de “vazio”...numa ausência total de esperança que impede todos nós de questionar se vivemos ou não no “melhor dos mundos possíveis”. Cada brasileiro de hoje assemelha-se àquele personagem de Voltaire que acreditava impossível ser evitar a repetição de desgraças que o destino lhe reservava. Imaginem, depois disso que escrevi, como deve ser olhado por seus pares, no que vai se transformar e que adjetivos há de receber, um candidato às eleições presidenciais de 2014 que ousar questionar a continuidade do SUS, do Programa Mais Médicos, do Bolsa Família e da infinidade de cotas e diretrizes de “assistência social” com os quais o partido envenenou a administração pública nacional. Compreendam pois, a gigantesca tarefa que tem pela frente todos que se propõem substituir essa gente e lembrem-se da urgência, da necessidade premente, de um renascimento cultural no Brasil...da construção de uma nova razão e de um pensamento críticos capazes de recuperar a liberdade de ideias e de livrar a nação da luta de classes em que foi mergulhada pelo Partido.
Em 1964, a intervenção militar foi um movimento contrarrevolucionário no sentido político; nunca no sentido completo que só lhe poderia dar um forte embasamento cultural. Toda esquerda brasileira passou mais de 20 anos se aproveitando desse erro e nos levou à desgraça que hoje vivemos. Mais do que nunca é chegada a hora da resposta...Resposta que nos exigirá tempo e paciência imensos, que não pode vir com a mudança de governo ou partido no poder, e que vencedora será fizermos surgir no país a Contra-revolução Cultural.

Dedicado ao trabalho pioneiro da Rádio Vox.


Porto Alegre, 21 de abril de 2014. 

domingo, 20 de abril de 2014

MILITÂNCIA EM AMBIENTE VIRTUAL


Elisane Reis Ribeiro

Esperando ansiosamente os petistas treinados neste feriado no "camping digital"?
Primeiro, uma notícia (do Estadão de ontem): “A um custo de R$ 400 mil, o PT começou ontem a treinar militantes do partido para aumentar e capacitar o time que faz política nas redes sociais. Em um ‘camping digital’ que ocorre até amanhã à noite em São José dos Campos, cerca de 2 mil inscritos participam de debates, palestras e oficinas que têm por objetivo formar o exército virtual da sigla que vai atuar nas eleições de outubro. Nos três dias, frequentarão eventos que vão da tecnologia - "como usar um editor de imagens", "como formar e articular redes", "fotografia para o ativismo" - às estratégias - "como fazer seu blog acontecer", "meme, como fazer um viral" (...). Ontem pela manhã duas militantes virtuais do PT ensinavam como criar e gerenciar um perfil no Facebook e no Twitter.”
Como essas criaturinhas adestradas vão aparecer em maior número a partir de amanhã, vou deixar minha contribuição:

~ Algoritmo de identificação para os ‘militantes virtuais’ do PT ~

Critérios de suspeita de que a simpática criatura atrás do teclado sofre de MAV-PT (‘militância em ambientes virtuais’... sério, eles chamam assim).

1. Português (muito) incorreto. O português sofrível é utilizado por pelo menos 98% dos militantes petistas na internet; 

2. Uso recorrente, em meio à indigesta sopa de português maltratado, de alguma das seguintes palavras ou expressões: fascista, “idiota de direita”, coxinha, reacionário, elite golpista, burguês, excluídos/oprimidos, “luta de classes”, “justiça social”, e outras de teor semelhante;

3. Crença de que Lula foi o presidente operário pai dos pobres e/ou que Dilma é uma administradora competente;

4. Crença de que os presos do mensalão são presos políticos;

5. Presença de mecanismos de fuga, evidentes em tiradas como “mas e a corrupção dos outros?”; quando confrontados sobre os esquemas de corrupção petistas (mesmo que você jamais tenha defendido “os outros”); e/ou outros sinais de desonestidade intelectual em defesa do PT;

6. (Des)Ocupação. Não trabalha e é sustentado pelos pais; ou está pendurado em alguma teta do governo;

7. Capacidade insuperável de ignorar fatos concretos e dados;

8. Crença de que a inflação (ou a piora de qualquer outro índice econômico) é coisa de “gente alarmista que torce contra”;

9. Capacidade de aplicar dois pesos e duas medidas em qualquer assunto, como na defesa de direitos humanos apenas para minorias;

10. Defesa do indefensável, como da ditadura cubana e do presidente da Venezuela.

- Os itens de 2 a 5 são considerados critérios maiores. A presença de 1 critério maior classifica o sujeito como MAV-PT provável.
- Os itens de 6 a 10 são critérios menores. A presença de 1 critério menor serve para classificar como MAV-PT possível.
- O item 1 é um critério especial que pode ser usado para alta suspeição da doença MAV-PT (assim como o uso abusivo de CAPS LOCK em discussões com temas políticos).

O diagnóstico de certeza é apenas anátomo-patológico (confirmado através de evidências de depósitos bancários em nome de petistas na conta da pessoa, por exemplo).



sábado, 19 de abril de 2014

MENINO COMUM


Milton Pires

Não é sem um certo constrangimento, sem um certo sentimento de culpa, que começo esse artigo. De uma forma ou de outra, é como se eu estivesse fazendo aquilo que se sempre critiquei tão duramente na imprensa brasileira: explorar tragédias e desgraças para fazer dinheiro ou agradar políticos. Sinto-me, pois, na obrigação de dizer, já no início, que não sou jornalista profissional, que não escrevo a soldo de ninguém e que não integro partido político algum.
É com esse parágrafo acima que começo agora o que vou escrever sobre o assassinato do menino Bernardo Boldrini, cujo corpo foi encontrado numa cova no município de Frederico Westphalen, aqui no Rio Grande do Sul, na última segunda-feira, 14 de abril. O que segue são as minhas considerações, não sobre a culpa do pai ou da madrasta (já que até agora estão presos na condição de suspeitos) mas sobre o sistema judiciário brasileiro, sobre as ações das promotorias e dos assistentes sociais no nosso país.
Antes de morrer, bem documentados foram os pedidos de ajuda deixados pelo menino, a história de abandono afetivo por parte da aberração que atendia pelo nome de “pai” e até mesmo uma suposta tentativa de sufocamento por parte de uma madrasta que parece saída das “estórias de bruxas”. Nada disso adiantou: não bastava avisar o Ministério Público que a madrasta tinha tentado lhe matar nem que seu pai o havia abandonado. Bernardo não era negro, nem índio nem gay, nem deficiente, nem pobre...A promotora e a assistente social pouca atenção lhe deram no sentido de considerá-lo “criança sob risco”.
É sobre esse ativismo nojento, é sobre essa “justiça social” que devemos, todos nós, pedir licença à memória de Bernardo para escrever...É para que sua morte, supostamente causada pela disputa da herança deixada pela mãe, não se torne ainda mais absurda e para que alguma mensagem se tire do seu martírio compreendendo a vergonha que se tornou fazer “assistência social” no Brasil Petista – profissão que, já na sua graduação, começa com uma verdadeira lavagem mental marxista dentro da sala de aula. Não bastasse a tragédia das crianças que procuram a ajuda desses militantes petistas, há ainda os promotores, promotoras e juizinhos de gel no cabelo que, oscilando entre o positivismo fanático e o “direito alternativo”, pautam sua sentença totalmente pela letra fria da Lei ou pela “manifestação” que está, naquele momento, na frente do fórum.
Desculpas peço aqui a todo honrado magistrado que me lê, ao promotor ciente do seu ofício e à assistente social não cooptada pelo PT. Sei perfeitamente que vocês, assim como a gigantesca maioria dos médicos brasileiros, todo respeito merecem mas peço agora que exercitem o que em Medicina chamamos de empatia – a capacidade de colocar-se no lugar do outro, de sentir como ele, de escutar e sofrer como ele e colocar-se, afinal, no lugar dele. Coloquem-se pois, no lugar da classe médica brasileira, vocês que bons juízes são..vocês que promotores dedicados se mostram, pois que toda opinião pública do Rio Grande do Sul agora detém-se sobre a atitude de seus colegas que “erraram”..dos que foram “omissos ou negligentes” como muitos de nós, médicos, somos apresentados.
Médico se dizia o pai de Bernardo, ainda que de um monstro aparentemente não passe. Verdadeiros promotores e assistentes sociais se acreditam aqueles que o menino procurou, e vejam a desgraça que suas decisões produziram.
Todo sistema judiciário brasileiro está doente e não só pelo gigantesco número de ações acumuladas, pelo sistema penitenciário falido que favorece à liberdade de monstros, ou pelo fim da segurança pública. A Justiça adoeceu pelas mesmas razões que a Medicina e a Educação: tornou-se marxista e lida com uma espécie de Direito que só existe nos “excluídos”..nos “marginalizados”..nos “pobres” e nas “minorias”..categoria em que jamais se encaixou Bernardo que era apenas um “menino comum”.

Em memória de Bernardo Boldrini (2003-2014)

Porto Alegre, 19 de abril de 2014.  

domingo, 13 de abril de 2014

A PEQUENA HISTÓRIA DE CUNGA E MUNGA GOVERNANDO O BRASIL


Milton Pires
Era uma vez um mundo muito antigo onde não havia iphone 4 nem baile funk. Os habitantes desse planeta viviam em "aldeias das cavernas" (não perguntem como cavernas podem formar aldeias. A estória é minha e nela elas formam..) sem nenhuma espécie de lei ou conta para pagar. Não havia chefe, sindicato, nem governo e praticamente tudo se resolvia na base da porrada. Em cavernas próximas, dois vizinhos, Cunga e Munga, estavam cansados de tanta confusão. Além de fugir de tigres dente de sabre e dos mamutes, estava ficando chato e cansativo matar e bater tanto nos outros por causa de comida e de mulheres que sequer se depilavam - não era uma questão de falta de respeito já que o respeito nessa época ainda não havia sido inventado. Preocupado com a situação e resolvendo acabar com aquela guerra contínua, Cunga fez uma proposta a Munga dizendo o seguinte: "tive uma idéia: quem sabe a gente dá um tempo na nossa confusão por causa de comida e mulher e se junta pra matar mamutes e se defender dos tigres?" Munga achou que podia ser negócio participar daquilo e muitos anos mais tarde, naquele mesmo planetinha, um sujeitinho francês de peruca branca com mania de dizer que no início todo mundo era "bonzinho" chamou esse pacto de "Contrato Cavernoso". 
O contrato funcionou bem no início.Para ser franco, funcionou tão bem que a turma das cavernas achou que Cunga e Munga eram dois "gênios".Eles assumiram inclusive o papel de líderes daquele pessoal e foram dispensados de participar de caçadas, apartar brigas, ou participar de limpeza das cavernas porque naquela época já havia algumas feministas que queriam forçá-los a entrar nisso. O afastamento “preventivo” dos dois revoltou alguns dos integrantes da aldeia e muitos anos mais tarde, um alemão safado que viveu toda vida às custas de um amigo, num livro chamado "Das Kavernal", escreveu que a característica principal da turma do Cunga e do Munga era não produzir coisa alguma e ficar só chefiando os outros caras..O alemão disse que isso não era justo, e berrou "trogloditas do mundo, uní-vos..." Depois de uma Revolução enorme que durou 70 anos e de duas guerras mundiais a coisa aparentemente se acalmou e daí um sujeito estranho veio com a idéia de que "a história tinha acabado"..Escreveu um livro chamado "O Fim das Cavernas e o Último Troglodita" e disse que essa coisa chamada "Estado Capitalista ou Neoliberal” ou seja lá o que for, que havia nascido lá atrás no "Contrato Cavernoso", tinha garantido tanta coisa boa que ninguém mais ia ficar disputando a idéia de acabar com ele em nome da igualdade entre os trogloditas. 
Os trogloditas, que nessa época passaram a chamar uns aos outros de "pessoas", continuaram pagando as contas, indo a missa e achando certo ir pra cama só quando fossem de sexos diferentes, mas foi aí que a coisa se complicou outra vez e sempre por causa da turma do alemão.Dessa vez ele já tinha morrido, mas alguns amigos dele, principalmente um italiano sem-vergonha, resolveram deixar o tal "Estado" em paz mas começaram a implicar com as coisas que as pessoas acreditavam. O conjunto que essas coisas tinha ganhou então o nome de "cultura".Seja lá o que isso signifique, dava menos problema pra turma do italiano mexer com isso do que impedir as pessoas de ir a missa ou botar mais gente morando na casa delas...As pessoas então começaram a fumar ervas e plantas estranhas, cheirar substâncias esquisitas e acreditar que não é preciso ser alfabetizado para ser intelectual..No resto do mundo a idéia não ganhou muita força e as idéias do alemão e do italiano ficaram meio de lado...menos num país mais novo em que toda idéia, quando velha e buscando se aposentar, vem morar. O nome desse país é Brasil e foi nele que em 1980 foi fundado o Partido das Cavernas - graças a ele, todos nós, hoje pessoas, voltamos a ser tratados como trogloditas pelos companheiros "Cunga e Munga" que se mudaram pra cá e estão no poder.

PORTO ALEGRE, 12 de abril de 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O JURAMENTO DE HIPÓCRITAS


Milton Pires

“Juro por Apolo Médico, por Esculápio, por Higí por Panaceia e por todos os Deuses e Deusas que acato este juramento e que o procurarei cumprir com todas as minhas forças físicas e intelectuais.
Honrarei o professor que me ensinar esta arte como os meus próprios pais; partilharei com ele os alimentos e auxiliá-lo-ei nas suas carências.
Estimarei os filhos dele como irmãos e, se quiserem aprender esta arte, ensiná-la-ei sem contrato ou remuneração.
A partir de regras, lições e outros processos ensinarei o conhecimento global da medicina, tanto aos meus filhos e aos daquele que me ensinar, como aos alunos abrangidos por contrato e por juramento médico, mas a mais ninguém.
A vida que professar será para benefício dos doentes e para o meu próprio bem, nunca para prejuízo deles ou com malévolos propósitos.
Mesmo instado, não darei droga mortífera nem a aconselharei; também não darei pessário abortivo às mulheres.
Guardarei castidade e santidade na minha vida e na minha profissão.
Operarei os que sofrem de cálculos, mas só em condições especiais; porém, permitirei que esta operação seja feita pelos praticantes nos cadáveres.
Em todas as casas em que entrar, fá-lo-ei apenas para benefício dos doentes, evitando todo o mal voluntário e a corrupção, especialmente a sedução das mulheres, dos homens, das crianças e dos servos.
Sobre aquilo que vir ou ouvir respeitante à vida dos doentes, no exercício da minha profissão ou fora dela, e que não convenha que seja divulgado, guardarei silêncio como um segredo religioso.
Se eu respeitar este juramento e não o violar, serei digno de gozar de reputação entre os homens em todos os tempos; se o transgredir ou violar que me aconteça o contrário.”
Peço desculpas ao leitor se começo o texto assim, mas não teríamos nós, médicos brasileiros, outra chance de descrever o que sentimos quando partem daqueles que atendemos as perguntas cujas bases vem da indagação - “onde fica o seu juramento, doutor?”
Tudo que está escrito no primeiro parágrafo é aquilo que jurei em 1994 quando me formei em Medicina. A redação dessa promessa foi elaborada na Grécia no período em que viveu seu autor: entre 460 e 370 antes de Cristo.
Ajudem-me se eu estiver errado: onde, naquilo que está escrito originalmente em grego, está a promessa de atender absolutamente qualquer pessoa gratuitamente? Em que linha vocês encontraram o aviso de que o médico pode ser interpelado em situações sociais as mais diversas para dar uma “olhadinha” numa mancha de pele? Estava feita no juramento a promessa de que os médicos seriam pagos pelo governo grego ou por alguma cooperativa de seus colegas?
Sabem vocês, não médicos, o porquê da nossa indignação? Porque o Juramento de Hipócrates transformou-se no Juramento do SUS e é hoje “carta na manga” de todos aqueles que querem atacar os médicos brasileiros pela sua “falta de humanidade” e “indiferença com relação ao sofrimento”.
Hipócrates pertencia a um mundo e a uma época em que igualdade entre desiguais era considerada injusta. A democracia ateniense nada tinha em comum com o delírio estatístico que faculta o voto dos analfabetos e dos presidiários, que governa com Bolsa Família, ou que compreende que justa é a sociedade onde existe “saúde, educação e segurança”. O mundo grego não pretendia se dizer justo por ser democrático; ele era democrático porque pretendia ser justo e advirto ao leitor que não tente ver nessa minha frase um mero “jogo de palavras”...uma mera “pegadinha” como aquela feita pelos que perguntam quem veio antes – o ovo ou a galinha?
Atenas ensinou ao mundo que a busca da verdade começa com o indivíduo e com uma vida que preza o belo e o justo na sua escala mais íntima..mais pessoal. Nada de transcendente, de eterno ou de sagrado nasceu do convívio politico da pólis, mas do recolhimento e da vida privada capazes de mostrar o quão perigoso pode ser dar sentido à realidade a partir da opinião comum. A verdade que vem das massas é o apelo da paixão, da sensualidade e do apelo material da forma capaz de esconder aquilo que só o pensamento pode contemplar e é assim que ela, verdade, se perde no tempo...é assim que fica para trás ou é distorcida como foi feito com o que foi jurado pelos primeiros médicos gregos..
Levado aos usuários do SUS por uma imprensa covarde e citado num país governado pela ralé petista, o juramento de Hipócrates perdeu todo seu sentido: quem se forma em medicina faz o juramento de original. Quem chefia os médicos brasileiros no SUS, quem serve de orientador aos médicos cubanos ou dirige a saúde brasileira massacrando os colegas perante a opinião pública faz o Juramento dos que não foram suficientemente decentes para serem médicos nem completamente corruptos para entrar para política – o Juramento de Hipócritas.

Dedicado com muito carinho aos “colegas” do Ministério da Saúde..

PORTO ALEGRE, 11 DE ABRIL DE 2014.



quarta-feira, 9 de abril de 2014

DANDO A LUZ AO PT


Milton Pires

Valesca dos Santos (Rio de Janeiro, 6 de outubro de 1978), mais conhecida pelo nome artístico de “Valesca Popozuda” ou apenas Valesca, é uma cantora, compositora, produtora e empresária brasileira. Foi vocalista do grupo feminino “Gaiola das Popozudas” entre 2000 e 2012 até a metade de 2013, sendo uma das responsáveis por tornar o funk carioca dissipado e conhecido em todo o Brasil. Em 2013 lançou-se em carreira solo com a canção "Beijinho no Ombro", que atingiu a décima segunda posição na Billboard Brasil.
Esse primeiro parágrafo é uma das maravilhas permitidas pelo famoso Ctrl+C. Tudo o que fiz foi isso: entrar na Wikipédia para saber, afinal de contas, alguma coisa a respeito dessa moça, copiar e iniciar o texto. O que vou escrever a seguir nada se relaciona com ela e muito pouco diz respeito a isso que vem sendo chamado de funk music. A ideia aqui é bem diferente: Antonio Kubitschek é o nome do professor que elaborou uma prova de filosofia da Escola de Ensino Médio 3, no Distrito Federal, e nela havia uma questão que chamava Valesca Popozuda de "grande pensadora contemporânea" - sobre isso eu acho que faz sentido escrever.
Antes de começar gostaria de chamar a atenção para uma atitude da própria Valesca que, segundo o Jornal O Globo, se disse “muito honrada” pela citação em uma prova de filosofia. Tal gesto reflete, ao meu ver, a sensação de estranhamento, a ideia de distância de uma pessoa que, independente do seu caráter ou de sua atividade profissional, jamais imaginou pertencer, ela mesma, ao mundo da alta cultura ou dos grandes pensadores. Em outras palavras eu diria o seguinte: mesmo sem ter conversado com Valesca ou com o “professor de filosofia” que fez a questão, eu imagino que nenhum dos dois se conhecia antes disso e que a moça jamais quis ser citada nem pediu ou pagou ninguém para que a letra de sua música se tornasse uma pergunta de prova.
Fácil seria escrever dizendo que não existe mais pensamento crítico no Brasil. Isso eu já fiz antes e se o fizesse novamente aqui, nesse artigo, correria o risco de passar àquele que lê a impressão do temido discurso “moralista”, “conservador” ou “reacionário” daqueles que acreditam num ensino de filosofia “distanciado da realidade” e “vinculado às elites.” Nada sei sobre ensinar filosofia. Sequer graduado sou nessa área do conhecimento e o que escrevo não tem relação com a minha condição de médico. É como brasileiro que tento me expressar...é como alguém que não perdeu (ainda) a noção da realidade e que tem perfeitamente guardada a distinção entre a alta cultura e a vulgaridade..entre a arte e o apelo comercial. Acredito ter como parceira nessa empreitada a própria Valesca dos Santos que, no seu sentimento de lisonja, revelou toda estupefação de quem jamais pretendeu ser fonte de reflexão alguma..e que na sua gratidão revela a ingenuidade de quem foi usada por mais um militante petista dentro da educação brasileira.
Não tenho, nem nunca tive, qualquer procuração para defender os pensadores desse país. Não conheço Valesca e nada sei do seu caráter. Não gosto daquilo que ela canta, mas isso nada tem a ver com o ensino de filosofia no Brasil. Digo apenas que a própria filosofia nasceu da “capacidade do espanto”... da curiosidade sobre o mundo, sobre o sentido da vida e de como vivê-la da melhor e mais justa forma. O questionamento sobre a verdadeira arte e sobre a noção do belo somaram-se à essas primeiras indagações dos gregos e vem atravessando o tempo como objeto de investigação filosófica.
Tudo o que se faz hoje em termos culturais é reflexo de um Brasil em que não há mais espanto algum..em que a própria noção do belo desapareceu e onde a vulgaridade, o apelo rasteiro à sexualidade, e ao sucesso comercial são aquilo que restou. Nem Valesca nem a maioria dos artistas que cantam o tipo de música que ela celebra pretenderam jamais ser mais do que isso. A crise moral ou cultural não começou com eles; começou dentro das Universidades e das escolas que se entregaram completamente ao domínio de um Partido Político e a um projeto de poder no qual o belo e o justo são o que servem à Revolução..
Valesca e os MC's dos bailes funks nasceram no mesmo país que deu ao mundo a música de Villa- Lobos, a pintura de Portinari, e a escultura do Aleijadinho. Toda tragédia do pensamento brasileiro não está nos bailes das favelas do Rio de Janeiro; está na Educação que, em nome de um delírio revolucionário, acabou com a distância que havia entre o juízo crítico e a obscenidade cultural dos mais pobres. Nossa miséria continua original: segue autêntica e sem pretensão alguma. Ela nunca se “prostituiu” como como disseram que Valesca fez.
Nada seria mais justo do que o funk brasileiro agradecer cantando nas suas letras a “filosofia vagabunda” da nossa Universidade. Valesca, queiram ou não, continua sendo verdadeira, mas a nossa cultura foi estuprada num baile em 1968, engravidou da revolução e morreu dando à luz ao PT.

Porto Alegre, 9 de abril de 2014.







segunda-feira, 7 de abril de 2014

PENSAR ANTES DE AGIR



Milton Pires

Quando terminou a redação de “A Condição Humana” Hannah Arendt fez questão de deixar claro o quão perigoso era o fato dos pensadores de uma sociedade acreditarem na liberdade de ideias como algo intocável. Salientou que, na vigência de um regime totalitário, muitas vezes o agir pode ser perigosamente mais fácil do que o pensar.
Essa semana, uma pesquisa do IBOPE mostrou algo que, até onde sei, não tem precedentes na história política brasileira: a queda nas pesquisas de um determinado candidato oficial do governo (Dilma) favorecendo a subida de um candidato não oficial (Lula) do mesmo governo na mesma eleição. É tão grande a desgraça da política brasileira...é tão miserável e anêmica a capacidade de se fazer oposição ao PT que os institutos de pesquisas não tem sequer pudor de apresentar dois candidatos do mesmo partido como alternativa aos entrevistados! O PT é algo tão grande...tão forte são seus valores (ou a falta deles) na vida política do Brasil que ele tornou-se governo e oposição ao mesmo tempo. Em certo sentido é como se pudéssemos dizer dessa gente aquilo que se dizia da Igreja na Idade Média e mudar a frase para “Fora do PT não há salvação”
Apesar daquilo que escrevi acima, gostaria de deixar aqui um aviso para aqueles que pensam que é exatamente o “mesmo PT” que volta com um eventual retorno de Lula ou com a permanência de Dilma no poder. Nada no PT poder ser ou permanecer o mesmo..Acreditar nisso seria incorrer no grave erro de entender que trata-se de um partido como outro qualquer e isso não é, de modo algum, verdadeiro.
A capacidade do PT de convencer um segmento importantíssimo do empresariado nacional, de conter as eventuais críticas de uma imprensa medíocre e de doutrinar a universidade brasileira já não é mais a mesma. O panorama geopolítico do mundo após a invasão da Criméia e o afastamento da Rússia do restante da Europa ocorrem exatamente numa época em que acaba um recente ciclo econômico do qual os dois governos de Lula foram beneficiários e do qual o governo Dilma assiste o fim. Permanecendo no governo em 2015 o partido há de enfrentar condições econômicas que, através da inflação e da recessão, hão de ter consequências políticas extremamente severas para quem quer continuar, depois de onze anos, mentindo para população brasileira. Não é possível negar, nesse contexto, que um endurecimento político, que um apelo populista maior ainda do que o produzido por médicos cubanos, pela euforia da Copa do Mundo, ou das Olimpíadas será necessário para que um governo totalitário como o petista atravesse mais quatro anos até 2018. O aparelhamento total do Supremo Tribunal Federal, novas tentativas de comprar o Congresso e um endurecimento da censura serão necessários na nova ordem petista de 2015.
Em maio próximo há de ocorrer aquele que vem sendo considerado como fato político o ano: a viagem do presidente Vladimir Putin à China. Da rodada de conversações que serão realizadas pouca dúvida resta a respeito do estreitamento das relações e de um fortalecimento maior ainda daquilo que vem sendo chamado de bloco russo-chinês em termos de visão globalista de poder. Não será possível ao Brasil, país que depois do século XXI tornou-se uma espécie de líder da “turma do deixa disso” nos conflitos internacionais, permanecer neutro nesse contexto e ignorar a pressão do Estados Unidos.
De tudo que escrevi aqui ficam, no meu entendimento, as seguintes conclusões: 1. as eleições que se aproximam nada mais são do que uma eleição “dentro do PT” 2. é patético acreditar que o PT, no seu delírio revolucionário, é um partido como outro qualquer e que, com Lula ou Dilma em 2015, o Brasil será o mesmo. 3. O mundo 2015 há de ser, do ponto de vista econômico e geopolítico, bastante diferente desse em que vivemos.
Sei que o Partido-Religião conhece essas minhas conclusões, que está tomando suas providências e que aproximam-se tempos sombrios..Mais do que nunca é hora de pensar antes de agir.

Porto Alegre, 7 de abril de 2014.

O Médico e o Monstro

Ou O Estranho Caso de uma Fábula Petista Sobre os Médicos Brasileiros

Elisane Reis - Belo Horizonte

Nosso governo atual não possui refinamento suficiente para escrever uma novela gótica. Mas ele serviria facilmente de inspiração para histórias de horror. E, voluntariamente, embora sem sutilezas, criou a sua própria versão de um clássico sobre a dubiedade da natureza humana. É óbvio que, por tratar-se de uma obra petista, o único requinte a ser encontrado é o de crueldade. O resto é simplificação grosseira, mas que serve que ludibriar os ignorantes (que são muitos) ou os medíocres (há uma sensível diferença entre a ignorância por falta de ensino formal e a ignorância por falta de escrúpulos e juízo, sendo que a mediocridade define esta última – e, sim, infelizmente os medíocres também são muitos).
Pesquisas foram encomendadas para saber da insatisfação do povo. Sob o olhar astuto do governo – afinal, tal entidade é difícil de uniformizar em uma terra tão vasta – “o povo” é basicamente quem vota. Medir a insatisfação e entender de onde ela vem não são atos motivados por eficácia de gerenciamento e muito menos por benevolência. Após reconhecer a insatisfação, contê-la, ainda que através de artifícios superficiais (e não resolvendo em definitivo problemas fundamentais) gera votos. A custo de votos vale tudo: até fingir que se está trabalhando. Perpetuar-se no poder é mais um fim, em si, do que utilizar-se do poder para algo útil. Como eleito, não importa o que pensem os seus não-eleitores. Ainda que os votantes a favor sejam minoria (o que é possível pela quantidade de brancos e nulos) o PT sempre acreditou que o resultado do pleito lhe deu carta branca, validando qualquer ação sem considerar a opinião dos discordantes.
Voltemos às pesquisas sobre a insatisfação popular. Perguntado sobre o que estava ruim, o pessoal andou dizendo que era ”a saúde”. Onde investir recursos? “Na saúde”. E perguntado sobre o que lhe faltava, “o povo” teria entendido que são médicos. Afinal, “o povo”, ou “a massa votante”, tem essa percepção simplificada do problema da saúde pública. Não é que os cidadãos estejam errados quando se queixam de que não têm acesso fácil e rápido a médicos. Realmente não têm. Mas conseguir uma consulta médica não resolve, por si, considerável parte dos problemas de saúde da população. Muitas vezes é só o começo, e insuficiente se considerarmos os recursos técnicos que hoje se fazem necessários na Medicina (esquerdistas adoram discordar enfiando neste ponto da discussão a cantilena da medicina preventiva, como se ela fosse de custo zero – não é, e não é desculpa para serviço malfeito). A população simbolizou no médico não apenas a falta do profissional, mas de todo o aparato de trabalho que é necessário para a “saúde”, e que vem a ser (vide as pesquisas) o ponto mais frágil das insatisfações com os governantes atuais. Impossível que o governo PT, querendo fingir fazer algo, não se aproveitasse disso (e unisse à oportunidade o benefício financeiro a colegas ditadores que mercantilizam trabalho escravo).
Se, em uma extrapolação simplória, o médico passa a representar toda a saúde, ocorre algo ainda pior: transfere-se para o médico, e não para quem gerencia o setor, a frustração da falta de tudo. A própria frustração da morte e da doença. Compreendam, é evidente que a presença do médico é crucial e indispensável para melhorar a saúde pública. Mas – pobre do médico – ela não é o critério exclusivo para isso. O resultado dessa percepção equivocada tem sido usado à exaustão para livrar o governo da responsabilidade que lhe cabe. E essa distorção não é nada menos que cruel para o paciente e injusta para a classe médica.
É ilusório que a visão romântica do médico munido de pouco mais que estetoscópio, receituário e caneta esteja sendo explorada para fazer crer que o morador miserável de um pequeno vilarejo terá acesso à medicina de qualidade. Eu não deveria nem mesmo escrever “medicina de qualidade”, pois “medicina” deveria dispensar esse adjetivo. Mas na prática não é assim. Estabelece-se, na realidade, uma estratificação do atendimento. Cria-se uma pseudomedicina – a que serve para o brasileiro pobre, e que constitui um arremedo do que deveria ou poderia ser feito. A figura do estrangeiro que veio de longe por desapego (conte-me outra), enfiado no jaleco (desde o aeroporto, conte-me mais outra), mandado para rincões distantes, encarna a fraude do cuidado. Fraude porque o Ministério da Saúde sabe que não é o cuidado médico adequado. A farsa tem o véu traiçoeiro da propalada “humanidade” do atendimento. Aqui, a crueldade fica em se utilizar do fato do paciente (principalmente o mais simples) tomar por resolutividade e eficácia a atenção pessoal recebida (o que não é necessariamente verdade): as consultas com os estrangeiros são marcadas em horários mais espaçados, para que sejam mais longas, por exemplo.
Digam pois se adianta que o médico se assente do lado (como dizem fazer os cubanos), se o remédio não está à disposição, se as sessões de tratamento indicado não serão marcadas, se ele simplesmente não soube resolver o problema e encaminhou para a fila longa do especialista, se o exame será feito após meses; ou se os papéis que ele fez com “tanto carinho” vão angustiar esperas intermináveis em pilhas que só aumentam? O brasileiro, efusivo por natureza, dispensa o pragmático em favor do simpático. Quanto aos carentes de tudo, são facilmente enganados pelo discurso assistencialista, ainda que não resolutivo.
“O governo trouxe médico, o governo melhorou a saúde”. Mentira. Seu governante eleito vai requerer o estado da arte, quando ele mesmo ficar doente. Ele não vai querer um arremedo de medicina. Não é nem para existir um arremedo de medicina. O corpo não é o mesmo? E o dinheiro do imposto é nosso, ele não caiu do céu para o governo fazer caridade, ele foi passado temporariamente às suas mãos para ser usado em nosso favor.
Transferiram a nós uma culpa que não nos cabe. “O povo”, ah o povo... Aceitaram um juízo de valor distorcido, fruto de toda essa propaganda: a caricatura do médico que não gosta de pobre, que só quer regalias, que não se dispõe a ir para longe. Que não possui escrúpulos. Mal sabe de nossa rotina de todos os dias, de lidar com a persistente falta de recursos em uma prática cada vez mais cara e complexa, da tristeza de não se conseguir fazer o que se sabe.
A inépcia petista procura se esconder atrás de adversários inventados. A estrutura da saúde pública segue precaríssima, e as obras do PAC não saíram do papel, em sua maior parte. Mas colocaram o médico no banco dos réus. Apropriaram-se do monopólio da caridade pública, embora não a pratiquem. Impuseram a ideia falsíssima de que apenas o governo se preocupa com os pobres. Os médicos discordaram do programa Mais Médicos. E daí? Discordantes são tratados atualmente como errados por definição, sem direito a expressar argumentos. Reprimiram-nos as queixas com as mordaças estampadas por “mercenários”. A crítica vinda do médico não tem mais valor. Ora, como não desconfiar de um governo no qual o Ministério da Saúde simplesmente ignora qualquer apelo e proposta da classe médica? Que evita uma discussão séria dos problemas da saúde com as pessoas mais diretamente envolvidas na questão? Simples, vendeu-se a ideia de que nossas reividicações são movidas apenas por ganância. No imaginário popular, eliminado Dr Jekyll, colocou-se Mr Hide no lugar.
Não culpem a nós, os médicos. A insatisfação do povo com a saúde, demonstrada pelas pesquisas, é também nossa indignação e impotência de todos os dias. Não estudamos para tapar buracos superficialmente, não trabalhamos para fingir resultados. Para nós, o povo não é apenas uma obtusa massa votante. O monstro é outro.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

CARTA AOS ESPÍRITAS - O Nascimento do Espiritismo do B



Milton Pires

Meus caros irmãos e irmãs espíritas,

Muito me desgosta, e receio causa, iniciar dirigindo a vocês linhas em que, num só texto, hão de se misturar fé e política. Lembro que difícil seria, para um membro de qualquer religião, não só para os espíritas, escrever o que se segue pois a natureza própria do discurso kardecista transcende a mundanidade da política. Necessário é, pois, antes de começar, justificar brevemente as condições que me levam a discutir o Espiritismo Brasileiro em termos políticos.
“Toda fé que não for capaz de contemplar a razão está fadada ao fracasso”. Imagino ser essa a mensagem maior deixada por Kardec capaz de nos fazer refletir, do ponto de vista filosófico, sobre a importância de certos temas materiais na nossa doutrina. Do ponto de vista histórico, necessário é lembrar que foi um mundo sem Deus que permitiu o surgimento de realidades como Cuba e Coréia do Norte, e que foi uma sociedade fanatizada pela fé, destituída de qualquer razão material, que criou condições para o terror no Iran.
Meus amigos, não escreverei sobre quem governa o Brasil nem sobre qual Partido Político produz nesse momento a tragédia do nosso povo. Considero “minha missão” discorrer sobre um certo tipo de discurso que, pretendendo ser político, tornou-se religioso, à medida que vendeu à nossa Nação a ideia de que o Reino de Cristo pode ser esse aqui na Terra. Entendo ser minha obrigação, como ex-marxista, alertá-los que aproxima-se um tempo em que a Lei da Justiça, Amor e Caridade, cuja aplicação até hoje ficou tão longe do coração dos homens, mais fraca há de ficar quando se comungar com o dogma de que toda “justiça é social”, que o “amor é burguês” e que a “caridade é hipocrisia”. Lembro ainda que, cada vez mais, aumentam na internet e principalmente nas redes sociais, o número de mistificadores empenhados em divulgar falsas mensagens, meias-verdades, e questionáveis “princípios” cuja finalidade nada mais é do que espalhar, dentro do Movimento Espírita Brasileiro, a cisão e a polêmica que mais tarde hão servir ao movimento revolucionário que varre o país. Um triste exemplo foram as supostas “lições” ou “comunicações” sobre a homossexualidade, tema do qual o verdadeiro espiritismo jamais e se ocupou, e que agora vem distorcer os princípios da nossa doutrina.
Necessário será entender que aproxima-se do nosso país um tempo de grande perigo não só para o espiritismo como para qualquer outro tipo de fé. Não é sem o legado de Kardec que o Brasil corre o risco de ficar, mas sem a mensagem de qualquer religião. Homens e mulheres, verdadeiros espíritos de baixíssimo grau, tomaram nas mãos o destino da nossa sociedade. Não há em seus corações nenhum reino do “por vir”..nada é transcendente na sua visão de mundo que acredita possuir, só ela, a chave para o paraíso aqui na Terra e que encontrou na “luta de classes” o verdadeiro motor da História. Não esperem, meus irmãos e irmãs, caridade vinda dessas pessoas. Não há lugar para o espiritismo em suas vidas já dirigidas pela Revolução. Atentos fiquem às suas tentativas de introduzir no debate espírita os temas que lhes são caros e fundamentais no sentido de destruir a família, de entregar a Pátria e esquecer Jesus. Em nome da “democracia” e da “liberdade de pensamento” esses falsos espíritas aproximam-se da Doutrina como uma legião das sombras que vem para disseminar o ódio, para semear a polêmica e cultivar o conflito. Chegada a hora é, pois, de afastar-se dessas pessoas tanto nos centros espíritas como na Federação para que não seja perdido o legado de Kardec e a mensagem de Jesus Cristo não seja transformada, dentro do espiritismo, em uma nova Teologia da Libertação..para que não surja a “reencarnação sem preconceitos”...as “cotas raciais nos centros espíritas”...a “mediunidade ao alcance do todos”...e para que não nasça no país, em definitivo, o “Espiritismo do B”...

PORTO ALEGRE, 4 de abril de 2014.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

MÉDICOS DOENTES

Psiquiatra Alexandrina Meleiro diz que estresse na carreira de medicina é gatilho para a saúde mental dos profissionais

Duas matérias recentes do Estado de Minas sobre a saúde mental dos médicos (a primeira colada abaixo e a segunda parte no link).
Impressionada com a informação de que o que o índice de autoextermínio entre os médicos seria CINCO vezes maior do que na população geral!
"Emergência: médicos em estado grave
É crescente a percepção de que profissionais da saúde estão cada vez mais sofrendo de transtornos mentais e recorrendo a álcool e drogas e, em último caso, ao autoextermínio
(Luciane Evans - 30/03/2014)
"Estamos quebrando um pacto de silêncio. Não se comenta o estado de saúde mental da categoria. Mas, ao expor esses problemas, temos a intenção de alertar, tantos os pacientes, quanto os médicos que passam por isso e não buscam ajuda", José Raimundo Lippi,psiquiatra, professor nas faculdades de medicina da UFMG e da USP
Uso e abuso de drogas, seguidos por depressão, transtornos e, em casos extremos, suicídio. Essas consequências de uma mente conturbada, avassaladoras para a vida de qualquer ser humano, tem tido como alvo principal profissionais que dedicam a vida a cuidar dos outros: os médicos. Homens e mulheres de branco se tornaram pacientes em estado grave e preocupação nacional. Isso porque há estudos que mostram que a prevalência de transtornos mentais é quatro vezes maior na classe médica do que na população em geral. Diante do cenário, acendeu-se o alerta máximo para a saúde dos “doutores” e também para universitários da medicina, que dão indícios de caminhar pelo mesmo trajeto. Conhecidos por se considerarem ‘deuses’, por lidarem com a vida e a morte tão de perto, a maioria não procura ajuda, o que torna o quadro mais ameaçador. Para eles e para os pacientes.
Para abordar este tema, o Estado de Minas traz, hoje e amanhã, a reportagem O peso do jaleco, mostrando a realidade e relatos por trás do glamour de uma das profissões mais concorridas e admiradas no mundo. “Estamos quebrando um pacto de silêncio. Não se comenta o estado de saúde mental da categoria. Mas, ao expor esses problemas, temos a intenção de alertar, tantos os pacientes, quanto os médicos que passam por isso e não buscam ajuda”, diz o psiquiatra, professor das faculdades de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de São Paulo (USP).
Preocupado com o quadro, ele comenta que tanto os estudantes quanto os profissionais formados convivem com a “figura do machado”. “Nós queremos salvar a vida. Existe na classe o desejo universal da imortalidade. O que nos faz sentir idealizados, onipotentes. Frustramos quando a morte leva um paciente e somos endeusados quando o salvamos”, comenta Lippi, acrescentando que em volta de todo esse universo de sentimentos está uma profissão estressante. Para a realidade de muitos, a tarefa diária de lidar com dois, três empregos, jornadas de longas horas, plantões e as pressões diárias.
Segundo Raimundo Lippi, nos últimos 10 anos tem aumentado o número de médicos doentes. No entanto, não há muitos estudos recentes no país sobre essa situação. No ano passado, diante de uma percepção da própria classe sobre o problema, foi criada a primeira Comissão de Atenção à Saúde Mental do Médico, da Associação Brasileira de Psiquiatria, do qual Lippi é coordenador. Desde quarta-feira até este domingo, o assunto vem sendo discutido, pela primeira vez no Brasil, na I Jornada Brasileira de Saúde Mental dos Médicos, sediada em Nova Lima, na Grande Belo Horizonte.
A situação, que segundo as entidades envolvidas é velada, tem cumplicidade dos órgãos públicos. Pelo menos em Minas Gerais. Enquanto o Sindicato dos Médicos do estado aponta que a profissão é a que tem mais afastamentos por doenças, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) nega e, mesmo a pedido do EM, não divulga os números dos últimos anos. A PBH alega que há um levantamento preliminar que não pode ser divulgado por não ter um balanço fechado.
O sinal do crescimento está em dados do Conselho Regional de Medicina-MG, que informa que, desde 2006, 11 médicos foram afastados por motivo de saúde em Minas. O que mais chama a atenção é que nos anos de 2012 e 2013 foram maiores os números de afastamento, sendo quatro a cada ano.
ESTUDANTES NO MESMO CAMINHO Antes mesmo de se tornar “doutor”, estudantes de medicina já merecem atenção. De acordo com a dissertação de mestrado defendida em 2012 pelo psiquiatra e mestre em ciência da saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Marco Túlio de Aquino, foi encontrada uma alta prevalência de transtornos mentais em estudantes do último período de medicina da universidade mineira.
Em uma mostra aleatória, 106 alunos responderam a um questionário de avaliação internacional que permitia a identificação dos transtornos. “Há uma incidência alta de todos os transtornos, exceto, a esquizofrenia”, comenta Aquino. Ele destaca que, dos 106 alunos, 47% tinham problema com uso e abuso de álcool. “Não quer dizer que haja uma dependência. Mas não é uso recreativo. É um consumo alto e em situação de risco para a saúde”, diz o médico. O consumo equivalia ao estudante beber ao menos três vezes por semana, em doses altas. “Há o abuso e, em algumas situações, sintomas de embriaguez elevados. Observamos que, muitas vezes, a bebida é usada para melhorar quadros psiquiátricos”, preocupa-se Marco Túlio, que acrescenta: “Dos 106 alunos que responderam o questionário, 43% apresentaram transtorno de ansiedade e depressão, sendo a maioria mulheres”, aponta.
Em um comparativo com a dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o psiquiatra constatou a prevalência de transtornos mentais até quatro vezes maior entre médicos do que na população em geral, situação já comprovada em estudos internacionais. “A academia é um fator estressante, que deixa um estudante de medicina emocionalmente carregado. É uma escolha profissional concorrida, em que o universitário tem uma cobrança alta, tanto de si mesmo, quanto da sociedade”, comenta Marco Túlio de Aquino. Ele ressalta que o volume de informações no curso é muito grande, além da competitividade. “Há ainda, o contato com a morte e as doenças, que pesam ainda mais”.
EXTREMO Em 1968, foi feito um estudo em 62 escolas médicas norte-americanas e três canadenses. Concluiu-se que o suicídio era a segunda causa de morte entre os estudantes de medicina, perdendo apenas para os acidentes. Em 1980, devido ao número de suicídios na Faculdade de Medicina de São Paulo, foi criado o Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o Grapal. “Felizmente, esse trabalho se estendeu pelo Brasil, cerca de 70% das universidades têm esse serviço. Ali, mostramos que antes de se tornar o ‘super Deus’, como os médicos se consideram, eles são suscetíveis a falhas e devem buscar ajuda”, comenta a psiquiatra Alexandrina Meleiro, doutora pela USP e membro da Comissão à Saúde Mental do Médico da Sociedade Brasileira de Psiquiatria.
Em 2004, a Faculdade de Medicina da UFMG criou o Núcleo de Apoio Psicopedagógico aos Estudantes de Medicina (Napem) e, segundo uma estudante da universidade, de 22 anos, e que não será identificada, trata-se de um serviço para qual a demanda é muito grande. “É um apoio excelente, mas em termos práticos a demanda é muito alta e os problemas cada vez mais graves”, observa. No 4º período do curso, a jovem reconhece que o estudo é pesado. “Há a expectativa e frustração de sermos perfeitos, além de uma competição ‘braba’ (SIC)”, diz. Ela destaca que no meio acadêmico já existe a incoerência, porque muitos não se cuidam. “Como vão atender um paciente e exigir dele cuidados se não fazem isso com eles mesmos?”, questiona. Entre os problemas que ela observa, a estudante destaca a anorexia, algo que segundo ela não é raro entre as alunas. “O fato de deixar de almoçar para estudar é um gatilho para o quadro. Os colegas também abdicam de todo o lazer em função dos estudos.” A jovem, que tenta se divertir para distrair a cabeça, revela que não são poucos os colegas que conhece que já pensaram em tirar a própria vida. “É um número relevante e assustador. Uma das válvulas de escape é o álcool e as drogas. Aqui, entra de novo a concorrência, mas para saber quem bebe mais. Em festa, tem sempre aqueles que exageram e extrapolam. Querem mostrar resistência.”
Em outubro do ano passado, uma estudante do primeiro período de medicina da UFMG se matou. Entre os colegas, ninguém sabe o real motivo, mas muitos apontam as cobranças que vêm desde o vestibular à uma depressão grave, que pode levar ao suicídio. “Não foi a primeira e sabemos que não será a última. Temos medo, mas a profissão que escolhemos exige de nós, às vezes, mais do que podemos suportar”, comenta um estudante da faculdade, que não quis se identificar.
DEPOIMENTOS
'No quinto período eu desisti da medicina. Nunca tive nenhuma tendência para a depressão, mas quando entrei para o curso, que era o meu sonho, desenvolvi o transtorno. Não tinha vontade para nada. Não posso culpar a profissão, mas a pressão é grande e a concorrência é ferrenha. Não era para mim'. - G. R. E., de Belo Horizonte
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'Estava no quinto período e não tinha tempo para mim. Era como vivesse uma vida que não era a minha. Não tinha lazer, não via filmes nem saia com os amigos. Até para comer, não tinha tempo. Queria ser o melhor da sala. Os meus pais esperavam isso de mim e eu também. Mas um dia, surtei. Quebrei tudo em casa e pensei em me matar. Já pensei nisso outras vezes. A medicina te afoga. Mas é uma escolha. Hoje sou residente e estou melhor.' - F.S., de Belo Horizonte"
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“Minha primeira depressão foi durante o quarto ano de medicina. Além dela, tenho transtorno bipolar. Meu quadro depressivo já foi tão grave que pensaram no tratamento com eletrochoque. O momento mais crítico foi quando fiquei afastada do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Já pensei em me matar, mas sempre me cuidei. Tive câncer de intestino também. Hoje, estou curada. Tenho terapeuta, tomo meus remédios e, quando não estou bem, cancelo todos os meus pacientes.”

O depoimento é de uma das psiquiatras mais reconhecidas e respeitadas no meio médico do país. Doutora em medicina pela Universidade de São Paulo e psiquiatra da Associação Brasileira de Psiquiatria, Alexandrina Meleiro não culpa a profissão pelos seus transtornos, mas reconhece que a carreira é um gatilho para a saúde mental dos profissionais de saúde. É dela um dos poucos estudos brasileiros sobre o suicídio entre os médicos. Sua tese de doutorado, defendida em 1998, mostrou que o índice de autoextermínio entre a classe é cinco vezes maior do que na população geral. Dezesseis anos depois, segundo ela, nada mudou.

A mais recente pesquisa feita no país, em 2009, reforça o que Alexandrina defendeu na década de 1990. Levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) revelou que a população médica brasileira tem taxas de suicídio e tentativas superiores à da população geral. Além disso, o estudo mostrou um predomínio de mortes entre médicos homens na faixa de 70 a 90 anos, no período de 2000 a 2009. Entre as mulheres médicas, os óbitos preponderaram na faixa de 40 a 60 anos no mesmo período. “Hoje, nós, psiquiatras, trazemos esse problema à tona. Nossa preocupação sobre isso tem aumentado”, afirma a especialista, que diz não se tratar de um alarde, mas de uma estratégia para convencer os médicos a buscarem socorro. Por isso, foi realizada no fim de semana passado a I Jornada Brasileira de Saúde Mental dos Médicos, em Nova Lima, na Grande Belo Horizonte. “Existe a resistência por parte da população em aceitar que as pessoas nas quais confia sua saúde podem vir a ter doenças mentais”, afirma Alexandrina.

Neste segundo e último dia da série “O peso do jaleco”, o Estado de Minas aborda os transtornos mentais em médicos formados. Em 2004, trabalho feito na Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp) mostrou que entre homens e mulheres de branco ambos apresentam taxas similares de uso nocivo e dependência de substâncias psicotrópicas em relação à população geral. A incidência varia entre 8% e 14%. O estudo coletou dados de 198 médicos em tratamento ambulatorial por uso nocivo e dependência química.

A frequência de uso nocivo e dependência de opioides (anestésicos derivados da morfina) e benzodiazepínicos (conhecidos como tranquilizantes de tarja preta) é aproximadamente cinco vezes maior entre os médicos que na população geral. “Existe um pacto de silêncio. Não se comenta isso na medicina, o que é ruim. Se na sua família há um médico que abusa do álcool ou de remédios, os familiares não se preocupam, porque pensam que, por ele ser da classe médica, sabe se cuidar”, comenta o psiquiatra, professor da Faculdades de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e da USP José Raimundo Lippi. De acordo com ele, quando o médico chega a pedir ajuda, “está em estado deplorável. Ele já caminha para a angústia, não dorme direito e tem dores”. Ele se lembra de um colega que morreu de dengue recentemente. “Ele foi diagnosticado com a doença, mas não tomou providências com antecedência”, conta, frisando ser esse um exemplo da sensação de imortalidade desses profissionais.

SINAIS De acordo com o psiquiatra, há alguns sinais que são detectáveis para saber se um médico está ou não bem. “Os próprios colegas podem reparar isso. Atraso frequente no trabalho, faltas não justificadas, ressacas constantes e redução no desempenho no trabalho são alguns deles”, enumera, alertando os familiares para que fiquem atentos também. “Quem precisa de ajuda geralmente piora a qualidade de vida em família. Começam a aparecer sintomas físicos, a pessoa fica mais solitária e desaparece do hospital ou do consultório sem que ninguém saiba”, acrescenta.

Especialistas mais vulneráveis

Psiquiatra Alexandrina Meleiro diz que estresse na carreira de medicina é gatilho para a saúde mental dos profissionais  (Arquivo Pessoal)
Psiquiatra Alexandrina Meleiro diz que estresse na carreira de medicina é gatilho para a saúde mental dos profissionais
Os profissionais médicos mais vulneráveis aos transtornos são os especialistas em anestesia, urgência e emergência e psiquiatria. “São profissionais que têm acesso mais fácil às drogas, lidam por muitas horas com a morte e com as doenças mentais”, comenta José Raimundo Lippi. Segundo o presidente da Sociedade de Anestesiologia de Minas Gerais, Jaci Custódio, hoje em dia o médico vive em constante estresse, por isso o “ fundo do poço”. Ele diz, ainda, que o quadro é agravado, por exemplo, no caso dos anestesistas, pelo baixo salário. “Em uma cirurgia de hérnia, o trabalhador ganha R$ 260 para duas horas de atuação. Além disso, temos um doente em nossas mãos e não temos o direito de errar. Somos piloto de avião. As pessoas entregam suas vidas para nós e estamos trabalhando em locais sem segurança alguma”, denuncia.

Custódio é anestesista e diz que sempre faz uma autoanálise. “Não posso me permitir ter depressão. Não aceito. Quando vejo algum sintoma, tento ficar bem. O álcool faz parte da vida nos fins de semana. Mas não tenho dependência. Buscar ajuda de um psiquiatra é uma ida sem volta”, critica. José Raimundo Lippi afirma que a depressão é a doença mental mais comum entre os médicos, inclusive entre os psiquiatras. “Todos são suscetíveis a patologias de ordem mental, principalmente aqueles que não se cuidam. É importante lembrar que o remédio cuida do sintoma, mas as causas precisam de atenção na psicoterapia. O médico pode ser um bom ‘receitador’, mas se não souber o que o cliente tem, não vai resolver o problema.” Por isso, para ele, a automedicação não deve ser vista como solução.

Para Alexandrina Meleiro, apesar de o autoextermínio envolver questões socioculturais, genéticas, psicodinâmicas, filosóficas, existenciais e ambientais, a doença mental é um fator de vulnerabilidade na quase totalidade dos casos. “O diagnóstico precoce e o tratamento correto da depressão (patologia mais encontrada nos suicídios) são uma das maneiras mais eficazes de prevenir o autoextermínio. O mesmo serve para a dependência de álcool e outras drogas.” Ela reconhece a resistência dos médicos em procurar ajuda psiquiátrica temendo serem estigmatizados. “Eles tentam primeiro automedicar-se ou fazer uma consulta informal com algum colega. Só procuram ajuda adequada quando a situação se torna insustentável.”

VIOLÊNCIA 
De acordo com o diretor de comunicação do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais e médico da família André Christiano, muitas são as queixas da categoria. “Além da alta carga de trabalho e baixa remuneração, há, ainda, muitos profissionais sendo vítimas da violência de pacientes. Agressões físicas e verbais”, diz. Christiano acrescenta que são muitos os médicos que usam os medicamentos como forma de camuflar o problema. “Isso nos preocupa bastante. Tem havido muito afastamento do emprego por causa de saúde. No ano passado, soubemos que os médicos eram os que mais se afastaram do trabalho na capital, passando até mesmo os professores”, compara.

DEPOIMENTO
“Procurei ajuda quando ainda era estudante de medicina. Tinha dificuldade em dormir e não me relacionava com o sexo oposto. Meu transtorno teve a ver com o abuso sexual que sofri quando criança. Procurei tratamento. Quando me tornei médica, abusava do álcool para relaxar. Acho que poderia ter sido uma aluna melhor no meu curso, mas fui mediana.”
V.F.G, de 33 anos, cardiologista


DROGAS ENTRE MÉDICOS
Principais substâncias mais consumidas entre 198 médicos. Os dados são de um estudo feito em 2004, na Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), intitulado Perfil clínico e demográfico de médicos com dependência química.

Álcool

» Dependência: 97 casos – 48,8%
» Uso nocivo: 47 casos – 23,7%
» Total: 144 casos – 72,7%

Cocaína
» Dependência: 42 casos – 21,2%
» Uso nocivo: 21 casos – 10, 2%
» Total: 63 casos – 31,8%

Benzodiazepínicos (BZD)
» Dependência: 31 casos – 15,6%
» Uso nocivo: 25 casos – 12,6%
» Total: 56 casos – 28,2%

Opiáceos (morfina)
» Dependência: 45 casos – 22,7%
» Uso nocivo: 8 casos – 4%
» Total: 53 casos – 26,7%

FONTE ORIGINAL AQUI http://sites.uai.com.br/app/noticia/saudeplena/noticias/2014/03/31/noticia_saudeplena,148107/alta-resistencia-em-buscar-ajuda-favorece-desenvolvimento-de-quadros-psiquiatricos-entre-os-medicos.shtml