"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

DESABAFO DE UMA MÉDICA E NOTA DO EDITOR



Dra. Lisieux Eyer de Jesus.

"Sabem, não vai adiantar. De novo não vai adiantar. Só como prova de honestidade. Só como prova de não-inércia. Só como prova de não lavar as mãos. Só como atestado de ter sido honesta, e dito alguma coisa.

Ontem nosso ministro da saúde (que não devia estar lá, como a grande maioria das pessoas nomeadas para este cargo) determinou que UPAs podem funcionar com 1 médico sozinho a cada 12 horas, isso à escolha do gestor (traduzindo: prefeitos podem escolher este modelo de funcionamento, de acordo com a expectativa de gastos).

O alvo é atender, numa conta simples (considerando atendimentos em um ritmo constante de dia e de noite, o que não é verdade, e considerando profissionais robóticos que não têm cansaço mental, não sentem stress e não têm que urinar ou comer e que pacientes de emergência precisam uniformemente de uma única avaliação médica, sem revisão) 4 pacientes a cada hora, em torno de 80 pacientes por turno de 24h. Isso porque as pessoas têm que "cair na real" e isso "é o que é possível" e "é melhor do que nada". Quinze minutos para cada um. Desde atestado para ontem até infarto agudo do miocárdio.

Isso depois de ouvir que o Ministério da Saúde "economizou" milhões recentemente (isso não quer dizer economizou, quer dizer não gastou atendendo ninguém, não se iludam).

As pessoas não são gado, que a gente tange para onde quer que ele vá. As pessoas não recebem atendimento de saúde pública de graça, elas pagam por isso (uma das maiores cargas tributárias do mundo).

Pessoas não ficam doentes por igual. Precisam de carinho e atenção, precisam falar de seus problemas, além de alguma medicação "no default".

Ser médico não é ser um "prestador de serviço" ou um "colaborador" como gosta de dizer a bíblia da mediocridade empresarial colorida com auto-ajuda. Medicina não é técnica (embora precise dela).

Só não digo que é burrice porque é planejado e planificado. Porque de fato o sr Ricardo de Barros (como todos eles, com pouquíssimas exceções) está se lixando para os pacientes e para os médicos e profissionais de saúde.

Porque toda esta gente nos descartaria juntos, médicos e enfermeiros porque já foram sugados até o bagaço e não servem mais e pessoas/pacientes em geral, porque têm que se virar com o que têm. Não comerão nem pão nem brioches. O rei mandou para o povo comida podre que sobrou das tropas, como reza a lenda histórica da França sob os Luízes, antes da revolução.

Nunca pensei que falaria isso, mas se tivesse um filho não gostaria que ele fosse médico no Brasil. Porque gostaria que ele fosse uma pessoa feliz. Porque gostaria que ele dormisse à noite. Porque gostaria que ele fosse respeitado como pessoa. Porque gostaria que ele não fosse impedido de realizar seu trabalho, que já é árduo sem ser atrapalhado. Porque ninguém quer fazer do seu filho uma espécie de Prometeu, que tem seu abutre garantido todo dia.

Depois de 30 anos de carreira eu digo isso tristemente.

Eu, que passei 8 horas sem fazer xixi porque estava operando. 12 horas sem comer porque não deu tempo. Madrugada sob a mira da arma de um policial ansioso pela salvação de seu colega baleado.

Eu, que já cheguei inúmeras vezes desidratada em casa depois de ser obrigada a operar numa sala de cirurgia sem ar condicionado, no verão do Rio de Janeiro (vestindo um capote estéril de brim com mangas compridas e máscara facial, embaixo de um foco com quatro lâmpadas e usando uma lupa que se enevoava com o vapor d´água).

Eu, que já atendi um paciente em pós operatório com intermação porque estava internado numa sala de recuperação sem ar condicionado a 42 graus de temperatura (alguém imaginaria intermação como complicação cirúrgica?).

Eu, que acreditei no país e no trabalho (e foi por isso que fiquei - ingenuidade minha, imprevidência minha). Eu, que ajudei a formar gerações de profissionais que, eu tenho certeza, são honestos e moralmente decentes.

Eu, que perdi a batalha quando não dá mais tempo para refazer a estratégia."

NOTA DO EDITOR 

Muito bom: só faltou dizer que foram MÉDICOS BRASILEIROS que colaboraram (e ainda colaboram) para que isso acontecesse. Perdi meu emprego em Porto Alegre, liquidei minha carreira, fiquei conhecido como "louco" lutando contra esse tipo de gente e os médicos continuam falando mal dos políticos sem fazer o "mea culpa"

 - O BRASIL ESTÁ CHEIO DE MÉDICOS FILHOS DA PUTA LIGADOS AO PT OU TRABALHANDO PARA ESTA ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA OU PENSANDO QUE AQUELES QUE ESTÃO NO MINISTÉRIO DA SAÚDE NÃO SÃO PETISTAS. 

(Dr.Milton Pires)

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